Luto

O Diabo que te Carregue - Capítulo 12

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Chega! A alegria do seu ex te ofende. As vozes, a música e os copos tilintando ao fundo toda vez que você liga para o celular dele são uma afronta pessoal.

Não há mais respeito no mundo? E o tal necessário período de luto após o fim de um relacionamento? Cadê o luto, homem? Não, da parte dele nada, nem uma vela acesa.

Você chora escovando os dentes, você desaba na cama dias seguidos, você enfia caixas e caixas de bombom goela abaixo, enquanto ele se sacoleja de balada em balada. Como você é pouco, menina. Nem dois dias de consternação seu ex manteve em sua homenagem.

Mas por que o seu valor está atrelado ao quanto seu ex honra ou não a sua morte? A sua morte como companheira dele, eu quero dizer. Ou será que você morreu de mais alguma forma?

Sim, você morreu mais do que parece. Seus sorrisos morreram um pouco, seu ânimo, até seu desejo por outros homens. Sua pele morreu um pouco, sua postura vergou um pouco, seus dedos enrijeceram um pouco. E, em contraponto a tudo o que morreu em você, a toda dor que te chumba ao chão, seu ex saltita como um beija-flor adolescente.

Será que a sua passagem não merecia um pouco mais de respeito? Se ele não consegue sentir tristeza pelo aniquilamento de tantos sonhos, ele poderia, ao menos, ter a decência de fingir. “Finja que sente muito, homem! É preferível uma mentira nobre e circunspeta a essa tez bronzeada e esse ar caribenho que te revolve os cabelos e me revolta o estômago”.

Sim, você queria que ele sofresse um pouco, chorasse um pouco, se deprimisse um pouco. Você queria vê-lo sofrer, pelo menos, tanto quanto você tem sofrido. Ou, talvez, você queria estar tão feliz quanto ele parece estar. Ilusão. Seus humores não mais se misturam no vapor do dia-a-dia, não há mais contaminação, nem para o bem, nem para o mal: vocês estão separados.

A morte de um grande amor deveria merecer mais atenção, pelo menos uma lágrima, um poema, um muro pichado que fosse.

O luto deveria ser algo obrigatório. Fica decretado que, a partir de hoje, qualquer um que se separe tem de observar as seguintes regras: chorar, no mínimo, até encher de lágrimas um copinho de cachaça; não ir a festas, bares, badalações públicas ou privadas por, pelo menos, dois meses; guardar distância de lençóis alheios pelo mesmo período; manter um olhar macambúzio em fotografias e, mesmo que acompanhado dos filhos, jamais viajar para a Bahia. É conveniente emagrecer se você for magro e engordar se você for gordo. É considerado de bom tom manter olheiras beirando o azul, contanto que os olhos permaneçam límpidos – o que caracteriza o sofrimento de um homem de bem e não a falta de sono de um playboy. Não podendo evitar o contato acidental com algum amigo, reafirmar o quanto esses primeiros tempos de separação têm sido duros. Churrascos estão permitidos. Churrascos são celebrações intrinsecamente melancólicas. O churrasco é o pai da depressão. E a mãe é um coração partido.

 

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*Photo credit: x1klima via Visual Hunt / CC BY-ND

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net