Mais uma vez... DE CAÇA A CAÇADORA

Depois de tantas mazelas, a mulher descasada decide tomar para si as rédeas do destino.

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Sem saber que o foco de atenção da família e dos amigos é algo perene, a mulher descasada muitas vezes se deixa abater pela pressão e se submete à vontade da maioria… Algumas se tornam semi-reclusas para evitar situações constrangedoras, mas muitas outras seguem na direção completamente oposta, sucumbindo à tentação de recorrer a métodos cada vez menos ortodoxos para tentar conseguir um par.
Não se trata apenas de agradar aos parentes, mas de convencer o mundo inteiro, incluindo a si mesma, que as coisas estão finalmente entrando nos eixos.
Para provar que é auto-suficiente (e calar a boca do tal comitê de uma vez por todas), lá vem mais uma daquelas idéias brilhantes …
Se poções, rezas bravas e encontros arranjados não deram um bom resultado, talvez seja hora de tratar a questão de uma maneira mais moderna. A idéia da salvação, advinda do palpite de uma amiga ou colega de trabalho, surge quase como um raio, uma “iluminação Cibernética”: a internet. A internet é a mais nova “lâmpada de Aladim”.
Através dela você pode comprar coisas, ver coisas, ler coisas e, muito provavelmente, namorar com coisas.
Dica: mil por cento das fotos colocadas nos sites de namoro cibernético são, na melhor das hipóteses, as melhores fotos que as pessoas tiraram durante toda a vida delas. E, se não forem de 25 anos atrás, podem simplesmente ser o reflexo de uma outra pessoa que passava por perto. Antes de começar a se aventurar, convém lembrar-se da poção mágica para transformar qualquer foto de sapo em pôster de astro de cinema: Photoshop. Photoshop é, por assim dizer, um programa de “embelezamento” de fotografias. Ou, para os incautos freqüentadores de sites de namoro, em outras palavras, é uma bela sacanagem da informática.
O site de relacionamento é a versão cibernética das casamenteiras medievais. Se na Antiguidade arautos eram encarregados de levar os retratos feitos pelos pintores para os futuros pretendentes, hoje o Photoshop toma o lugar do artista. Pintas, manchas, falhas dentárias, tudo ganha um “upgrade” artístico.
A probabilidade de uma pessoa ser tão bonita pessoalmente como na foto do site é de uma em um bilhão. Dica: por mais nítida que a foto seja e por mais minuciosa que seja a descrição, há alguns pequenos detalhes que não ficam exatamente aparentes na foto e que muitas pessoas se esquecem de mencionar. Por isso, pense bem antes de embarcar nessa aventura.
Oitenta e sete por cento é a probabilidade de você marcar um encontro com o Brad Pitt e acabar saindo com um Beto Pita que engoliu um pisca alerta. Técnicos em tortura revelam que sete é o número máximo de encontros pavorosos a que uma mulher pode ser submetida sem que seu julgamento e autocrítica sejam permanentemente abalados. Automaticamente, você faz uma recapitulação das suas recentes experiências “amorosas” e se dá conta, quase sem querer, de que o primeiro era “muito peludo“, o segundo “muito velho”, o terceiro “muito gordo“, o quarto “muito fedido”, e fica com vergonha de ser tão fútil e implicante.
Depois lembra que seu ex não era lá nenhuma maravilha da natureza e tenta entender o que foi que aconteceu com você. Faz uma auto-análise e chega à conclusão de que sua vida é muito vazia simplesmente porque seus valores são errados. Repete para si mesma que o importante é o “interior” e que o resto é bobagem. Começa a ler, de novo, os livros de auto-ajuda e inteligência
emocional que vieram na cesta de Natal do ano passado, só para em seguida largá-los na metade e comer uma enorme e mais recompensadora fatia de bolo de chocolate.
Em busca de alívio para sua consciência pesada, tenta trabalhar como voluntária na creche do bairro nos fins de semana. Não só para “dar uma razão mais nobre para sua vida” como também para poder dizer que tem compromisso no sábado. Mal consegue disfarçar o aborrecimento quando é informada de que as creches não funcionam aos sábados.
Não adianta, não há escapatória. Você tem que encarar a realidade. Ligar para a aparência é algo muito frívolo e indigno de uma mulher inteligente e moderna como você. É preciso mudar.
Com isso em mente, você decide baixar ainda mais o nível de exigência. E é nessa hora que começa a fase da “filantropia social”:

• Você desiste do salto alto e anda meio encurvada só para o rapaz baixinho não se sentir humilhado.

• Fica ouvindo durante horas um taxidermista narigudo dissertar sobre seu mais recente trabalho em um chiuaua.

• Chega até a ponto de fingir que adora ouvir a coleção de marchinhas em disco de vinil enquanto ajuda a lavar a
comadre do avô do tal cara com intolerância a leite que sua tia apresentou.

E por aí vai, nesse turbilhão de boas intenções e péssimas conclusões, metendo-se nas mais estapafúrdias encrencas, até que uma alma nobre, provavelmente uma amiga separada há mais tempo, apareça para o resgate.
Com meia dúzia de palavras e uma dúzia de caipirinhas, vocês terminam a noitada rindo descaradamente das recentes experiências e fazendo um pacto assumindo o direito inalienável de cada um a um pouco de futilidade. Em altos brados, reafirmam que querem mesmo mais dos homens, e não só intelectualmente.
Depois de tantas mazelas, a mulher descasada decide tomar para si as rédeas do destino.
Se a internet não deu, o negócio é partir para o combate “corpo a corpo”. Agora, quem dará as cartas é ela. Cansada de ser vítima, a mulher passará de caça a caçadora.
Muitas sairão pela noite- normalmente em duplas- para localizar, catalogar e digerir sua presa.

*Photo credit: antifluor via Visualhunt.com / CC BY

**Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com modificações, com a devida autorização e revisão da autora.

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Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.