Majestosamente solteira

O diabo que te carregue! Capítulo 22

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O óbvio, às vezes, se esconde. O óbvio se mistura à prestação do plano de saúde ou à cama fria e perde a cor, o cheiro, o significado. Hoje você se deu conta do óbvio, e foi assim: três da tarde, você está com seus filhos na Livraria Cultura. Eles se sentaram numa mesinha cheia de livros infantis enquanto você procura o CD do filme Encontros e desencontros na parte de trilhas sonoras. Você ainda prefere CDs.

Então um homem, homem pouco passado dos quarenta, do tipo absolutamente em forma e charmoso até trincar os dentes, para ao seu lado. Ele olha para você e você, para não sair dali, resolve procurar o CD em todas as repartições uma segunda vez. Ele pega algum produto na estante, lê a embalagem, o coloca de volta no lugar e olha de novo para você. Você retribui, meio sem graça, mas retribui. Subitamente aparece a dona do gatão de meia idade – um cara daqueles dificilmente estaria sozinho – e ele vai embora, de mãos dadas com a fulana muitíssimo mal-encarada.

Você acompanha o casal com os olhos e, antes que eles se retirem da loja, o gato vira-se de supetão e, sem o menor pudor, encara você. Encara você e sorri. Sim, sorri! Para desespero da fulana grudada a ele – esse relacionamento não deve estar muito bem das pernas –, ele sorri direta e especificamente para você. Você não tem tempo nem de virar o rosto nem de retribuir ao sorriso, tudo é muito rápido, mas uma coceira lhe varre as entranhas, seguida de uma curiosa sensação. Sensação não-identificada, quente, vigorosa, espumante.

Desejo. Você bem que quis enterrar seu desejo, mas ele não se dobra fácil e agora não mais te interessa calar sua voz rouca. Eis o óbvio brilhando como diamante lapidado ao sol: você agora é solteira de novo e, portanto, está livre para curtir as delícias que só a vida de solteira tem.

Vejamos: liberdade para fazer o que quer na hora em que quer é bom, mas pouco significativo neste momento – mesmo porque as crianças fazem com que você não possa realmente fazer o que quer na hora em que quer. No entanto, há outras coisas muitíssimo estimulantes para as quais você está plenamente liberada: paquerar sem culpa, sair com uma pessoa nova, poder trilhar todas as possibilidades de entrega romântica que se coloquem à sua frente, sem limites ou rótulos humilhantes (como amante).

Você está livre, sem entraves, impedimentos, sem juízes particulares cutucando sua consciência. E, mais uma vez, o óbvio nunca pareceu tão novo e fresco: você é solteira!

Ao sair da livraria, você sente o vento no rosto, no corpo. O mesmo vento que te atingira na entrada, parece agora um renovado e sexy vento tropical com aroma de canela. Você fecha os olhos um instante, respira fundo e sai correndo atrás das crianças que foram brincar nas esculturas temporárias do Conjunto Nacional.

Não, você não sai correndo como uma mãe aflita, disparando conselhos aos pimpolhos arrojados. Tampouco você sai correndo como criança, como se outra criança fosse. Você sai correndo exatamente como você é: uma mulher. Uma mulher majestosamente solteira.

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net