Mandingas da Lady Murphy

O Diabo que te Carregue - capítulo 38

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Hoje faz exatos nove dias que você saiu com aquele monumento, aquele lenhador nórdico, aquele jardim de delícias e… nada dele, nenhum sinal de fumaça.

Nove dias. Nove noites. Duzentas e dezesseis horas. Quando chegar o décimo dia, ou seja, amanhã, você perderá as esperanças de vez. Não, não perderá coisa nenhuma e por um motivo simples: porque você é uma besta, burra, estúpida, cretina, idiota, anta, múmia paralítica, cabra zarolha e tontololona do asilo. Só por isso.

As mulheres costumam tecer mil teorias sobre o silêncio, o branco, o nada no qual os homens nos mergulham após um encontro. Será que o ritmo dele é mais lento? Será que ele está com medo de se apaixonar? Será que o fato de eu ser uma mulher independente o assustou? Será que ele está dando um tempo para me testar? Para ver se eu não sou do tipo que pega no pé?

Nana, nina, não. Nenhuma das anteriores. Ele não liga nem te manda uma porcaria de uma mensagem no WhatsApp por um motivo tão verdadeiro quanto terrível: ele não está a fim de você! Talvez tenha estado um dia, talvez tenha dito que aquela foi uma das melhores noites da vida dele, talvez tenha afirmado convicto que, sim, da próxima vez ele te levará a um motel incrível cheio de tatames para vocês rolarem pelo quarto todo, mas era mentira. Ou nem era mentira naquele momento, mas agora é.

Vê se enfia uma coisa na cabeça: nenhum homem, por mais ocupado que seja, deixa de arranjar tempo para sair com alguém que lhe interessa. Se o terrorista mais procurando do mundo ou o presidente dos Estados Unidos disser para você “ando meio corrido”, isso significa: você dançou, já era, larga do meu pé.

Homens são covardes. Guerras eles fazem bem, mas dizer a uma mulher que não querem mais vê-la é, para eles, uma montanha de proporções intransponíveis. É você quem vai ter de se tocar e, se ainda não se tocou, aí vai meu conselho: silêncio é sinônimo de rejeição, sim. E nove dias de silêncio, nove incontáveis dias de silêncio da parte dele, significam terra e cimento sobre o seu caixão, soam como uma marcha fúnebre na sua missa de sétimo dia, representam seu corpo inerte posto sobre uma jangada num rio hindu enquanto um pescador macérrimo ateia fogo sobre ele. Você já era.

O clima, portanto, é de desespero. E você resolveu apelar. Para afastar o terror do décimo-dia-sem-notícia, ou seja, da averbação que você foi posta de escanteio, você faz umas mandingas para provocar a maldita Lady Murphy (a criatura tanto te persegue que já ganhou vida, sexo e nome).

Por exemplo, bastava você estar abundantemente menstruada, sua depiladora ter entrado em férias e aparecer uma espinha monstro no seu queixo para aquele cara te ligar no esquema “vamos sair agora”. Aquele mesmo, por quem você seria capaz de arrastar três vagões de trem com a ponta do canino. Era a Lady Murphy te visitando sem qualquer vergonha.

Mas agora a situação é emergencial e você vai recorrer aos seus serviços. Primeiro você aproveita uma ardência de nada nas partes pudendas, compra um creme vaginal (daqueles que é preciso usar catorze dias seguidos) e começa a aplicar. Depois, você para de se depilar e joga fora o aparelho de barba quebra-galho. Vai ao cabeleireiro e pede para ele cortar mais curto que de costume e fazer mais luzes que de costume: o resultado faz você ter vontade de se enfiar num barril e só sair dali em dois meses. Você bota na lavadora todas as suas lingeries bonitas, só restando na gaveta as calçolas de algodão bege, daquelas folgadas que vão da bunda até acima do umbigo. Compra mil salgadinhos e chocolates e pizzas de catupiry e come tudo, até ficar com a barriga bem inchada. E depois toma um comprimido Xenical. Pronto! Tudo perfeito para não sair com ninguém – a não ser que a Lady Murphy entre em ação…

Nisso toca a campainha, é uma amiga sua, das que tem intimidade para te ver em farrapos, afinal, você está um farrapo humano. Sua amiga tenta te animar, diz que trouxe um presente – e que espera que você o use logo. Você abre o embrulho: são três camisinhas. Não, não e não!

Sua mandinga para atrair a Lady Murphy foi por água abaixo. Agora que você tem camisinhas nas mãos – a única coisa realmente necessária para transar – nada, absolutamente nada vai acontecer! Como diria a hiena do desenho: “Ó vida, ó azar, ó sofrimento!”

 

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net