Maternidade Selvagem

Sobreviver no caos é enxergar a simplicidade no complicado, é deixar de lado as pequenas coisas, é focar no essencial.

maternidade selvagem

Ser mãe sempre foi um sonho de infância, daqueles que eu tinha a certeza de que realizaria. Eu persegui a maternidade de todas as formas, primeiro trabalhando com crianças, depois me casando cedo, e engravidando rapidamente. Tornei-me mãe aos vinte e cinco anos, e quando segurei minha filha nos braços pela primeira vez, foi como se tudo na minha vida fizesse sentido a partir de então. Todas as histórias, os problemas, as voltas e reviravoltas que o mundo deu, toda a minha existência se justificou naquele momento em que ela olhou nos meus olhos, e mesmo sem mexer os lábios, sorriu para mim. Foi a realização de um sonho, que eu continuei a perseguir com tamanha obstinação, que uns anos mais tarde, acabei sendo perseguida por ele também.
Muitas mulheres se encontram na maternidade e comigo não foi diferente. Pouco mais de um ano depois, já estava com meu segundo filho nos braços, e mesmo sendo uma mãe jovem de duas crianças, a maternidade chegou para mim de maneira completamente instintiva, sem muitos medos e incertezas, sem dores, sem privações, e sem muito sofrimento. Juntos, eu e meus filhos fomos descobrindo as dores e as delícias de cada nova fase, como a amamentação, a introdução alimentar, o desfralde, o choro, a birra, o dormir, o cansar e o descansar. Ser mãe, foi um papel que eu agreguei a tudo o que eu já era, e não uma função que tomou o lugar da pessoa que eu era antes. Foi um recomeçar suave, orgânico, quase como se eu já soubesse o que me esperava.

Eu confesso que no início tive vontade de largar tudo para ficar com os filhos. Ser tudo para eles, estar junto em todos os momentos, dar todos os banhos, cozinhar todas as refeições, contar todas as histórias, dar todos os “boa noites”, ser onipotente, onipresente, onisciente, uma espécie de deusa-mãe! Mas aos poucos fui aprendendo que ser mãe em tempo integral é condição inerente à maternidade, nada tem a ver com o tempo que nós passamos ou não passamos
ao lado ou em função dos filhos. Afinal, ninguém deixa de ser mãe porque está trabalhando, ou tomando sol, ou viajando, ou dormindo, ou chorando no banheiro. E eu aprendi isso quando meu primeiro casamento acabou e me vi sozinha com dois filhos para criar. Foi a primeira grande oportunidade que tive na vida para me reinventar e recomeçar. Juntar os caquinhos do castelo em ruínas e construir minha muralha. Uma morada digna da fortaleza que ainda estava por vir.
Depois de muitos dias de solidão e sossego, de muito trabalho e de me transbordar nas responsabilidade da maternidade sem pai, aquela mulher que não acreditava mais em contos de fadas, e que nunca mais iria acreditar no amor, casou-se novamente. E para coroar essa nova morada, nada melhor do que a concepção de uma nova vida, a materialização do amor mútuo, da cumplicidade, e da nova unidade denominada família moderna. E assim, sem muita explicação e contrariando todas as probabilidades, minhas trigêmeas Melissa, Cecilia e Laura chegaram ao mundo, virando a minha vida do avesso e me fazendo recomeçar nas dores e delícias da maternidade, em dose tripla, de uma vez só, e com outros dois filhos para cuidar, olhar e amar. Aquela sensação louca de ver aquelas três bebês minúsculas e amontoadinhas na incubadora, ainda na sala de parto, nunca mais me abandonou. Essa imagem foi o fim da minha vida controlada e perfeitinha, tudo o que veio depois de então, foi como estar em uma montanha- russa no escuro: você nunca sabe o que vem pela frente, mas sabe que vai ter sim, uma dose extra e caprichada de emoção. E muito barulho para acompanhar.

Ser mãe de cinco filhos é algo entre o insano e o lúdico, com uma pitada caprichada de doçura e azedume, quase sempre em proporções além das consideradas normais. É como passar um dia no deserto e depois tomar água até doer a barriga, é a cereja do bolo coberto com chocolate, doce de leite, merengue e marshmellow, é o doce mais doce que o doce de batata doce. É o teste de paciência eterno que eu nunca passo, porque sinceramente, não há paciência que resista a tantos “manhês” ecoando pelos corredores da casa, sempre em desafino com a lei da vida, com o dia de 24 horas, com minha vida profissional, pessoal, afetiva, particular.
Com o passar dos anos nessa nova jornada, fui desenvolvendo mecanismos de sobrevivência no caos, e criei para mim alguns conceitos que me salvaram da insanidade patológica, ou pelo menos estão retardando seus efeitos até então. Em um momento em quem muito se fala em respeitar o tempo de cada criança, e em criação com apego, eu crio meus filhos à sombra da ditadura maternal, respeitando a eles não mais do que aos meus próprios limites, de uma
maneira muito particular que eu chamo de maternidade selvagem, ou criação sem apego, mas nunca sem amor.

Ser mãe de dois adolescentes e trigêmeas de cinco anos é um desafio e tanto, mas que encaro com naturalidade, humor e coragem. Minha vida é um misto de quartel general, sala de justiça, e lona de circo chinês, com momentos de
preguiça súbita, emoção extrema, depressão profunda, e de calmaria fitness.

A maior lição que aprendi coma chegada das minhas trigêmeas, foi a de que perdemos muito tempo planejando a vida e sofrendo por antecedência, pois o futuro não nos pertence, e nadar contra a correnteza é uma questão de escolha.
Sobreviver no caos é enxergar a simplicidade no complicado, é deixar de lado as pequenas coisas, é focar no essencial. É recomeçar todos os dias, comemorando os sucessos e aprendendo com as derrotas, levando conosco as lembranças boas, e deixando para trás tudo aquilo que não agrega coisas boas. É viver cada dia como se fosse o primeiro, ou o último, afinal, tudo é novo ao amanhecer.

 

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Sabrina Martins Schvarcz é jornalista por formação, bailarina por paixão, e mãe por vocação. Divide seu coração e seu dia a dia entre seus 5 filhos, o Ballet Carla Perotti e o Ballerine Atelier, onde atua como diretora, professora e figurinista. Conta um pouco da sua rotina no instagram @mamae5estrelas