Menino no lago

Capítulo 33 - 32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens

lobinho
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Uma das raras lembranças que eu trago do jardim da infância (ah, que nome lírico) é a historinha do menino e do lobo. Todo dia, após o lanche, a professora contava histórias com fundo moral, enquanto a maioria da classe acariciava seus paninhos e chupava o dedo – inclusive eu. Depois de um ano, algumas dessas histórias haviam sido repetidas à exaustão, mas eu não me importava: crianças adoram um repeteco.

O menino e o lobo. Eis que o tal menino estava brincando no lago quando teve a péssima ideia de pregar uma peça num lenhador que trabalhava ali perto: “Um lobo, acuda, alguém me ajude, um lobo furioso, socorro!”. O lenhador passou a mão em seu machado e correu para salvar a criança. Chegando ao lago, porém, deu com o menino às gargalhadas.  Irritado, o lenhador disse: “Não faça isso, moleque! Um dia você pode sofrer um ataque real e eu não vou acreditar nos seus gritos!”. O menino deu de ombros e repetiu a brincadeira no dia seguinte, no seguinte e no seguinte. A cada vez, o lenhador, antes de pegar o machado, se perguntava: “Deve ser brincadeira, mas… e se não for?”.  O menino ia se divertindo a valer com a credulidade do lenhador, até que um dia um lobo de verdade, feroz, faminto, se aproximou do lago. O menino pôs-se a gritar e gritou, gritou até o último segundo, enquanto os dentes do lobo se cravavam na sua carne tenra. O lenhador, ao ouvir os gritos de sempre, apenas pensou: “Chega dessa palhaçada: não acredito mais nesse moleque”.

E aqui estou eu às voltas com um menino no lago. Vamos sair? – disse o rapaz, novo nome na lista. Sim, respondi. E, no dia marcado, as horas se arrastaram, escoaram, se esvaíram e… nada dele. Mensagens sem visualização. Tentei saber o que houve. “Ah, surgiu um imprevisto, não deu para ir”. Na semana seguinte, combinamos outro encontro. Um novo imprevisto, porém, aconteceu e ele – adivinhe? – não me avisou. Uma semana depois, mais precisamente hoje, do lodo em que os amantes irresponsáveis chafurdam, o gajo me manda um convite para ir ao cinema. Respondi que estava com outro (mentira) e que lhe desejava boa sorte (mentira). Pois ele teve a cara de pau de mandar como resposta a palavra “sacanagem”. Se eu pudesse incutir alguma noção de civilidade romântica naquela cachola canhestra, eu apenas diria: “Não sou sacana, meu caro: eu sou o lenhador. E você… você não passa de um menino”.

 

 

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Estranha, eu?

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net