Metamorfose

Me diga: há algo mais triste do que o medo de viver plenamente um grande amor? Talvez haja outra tão triste quanto: a covardia de não enterrar uma relação já morta (não digo que seja fácil, mas é possível enterrá-la com elegância e seguir).

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Photo by Dawid Zawiła on Unsplash

 

Sempre digo que você nunca perderá seu tempo dedicando-o a um livro clássico: ele pode não te tocar pessoalmente, mas não te proporcionará uma experiência medíocre. Portanto, você pode, por exemplo, até não gostar do escritor Franz Kafka, porém jamais poderá negar seu talento. E digo isso porque acabei de reler “A Metamorfose”, seu livro mais conhecido.

A história narra as desventuras de Gregor Samsa que um dia acorda em sua cama metamorfoseado num inseto gigante. Curioso que apesar do autor não dizer em que espécie Gregor havia se transformado, a barata tenha se tornado a opção mais óbvia. Não é para menos: que inseto poderia ser mais repugnante? A partir dessa realidade, a família de Gregor passa a se sustentar – coisa que ele fazia – e a cuidar, sem nenhum gosto, daquela imensa criatura rastejante.

Claro que, leitor após leitor mundo afora, todos censuraram a família Samsa por deixar o monstro num estado de quase absoluto abandono. Inclusive eu.

Quando experimentei “A Metamorfose” pela primeira vez, nos meus dezessete anos, supus que o livro fosse uma metáfora para um ente querido que de súbito fica doente ou que nasce com alguma deficiência e é, pela família, escondido do mundo, tratado com frieza, descuido e nojo, cuja morte todos desejam. No entanto, dessa vez, tive outra sensação – e aí reside a grandiosidade dos clássicos: seus significados se desdobram a cada leitura.

Eu não tive pena de Gregor, nem mesmo quando ele morreu. Concordo que sua família não era a mais amorosa do mundo, mas o que eu lamentei foi sua falta de iniciativa, sua inércia, sua nauseabunda prostração diante de uma situação nova. Ora, ele passou por uma metamorfose! Por que em vez de ficar preso a um quarto sendo mal e porcamente alimentado ele não se mudou para onde sua nova condição o talhava: uma mata ou floresta? Para quê viver sob um teto que não mais o acolhia e, mesmo que o acolhesse, que não era o ideal para ele? A metamorfose de Gregor, pelo visto, foi apenas externa. Por dentro, ele continuava a ser o que sempre foi: um inseto pusilânime.

Essa metamorfose apenas externa, uma metamorfose pela metade, me fez lembrar daqueles que, uma vez adultos, relutam em sair da casa dos pais e morar sozinhos. Verdade que a situação financeira costuma ser um entrave a ir morar só, mas há pessoas que nem mesmo tentam. Também me lembrei daqueles que relutam em assumir um relacionamento romântico sério e partir para uma vida adulta, a dois. Me diga: há algo mais triste do que o medo de viver plenamente um grande amor? Talvez haja outra tão triste quanto: a covardia de não enterrar uma relação já morta (não digo que seja fácil, mas é possível enterrá-la com elegância e seguir).

A morte de Gregor, portanto, não foi culpa do desamor da irmã, da severidade do pai ou da passividade da mãe. O culpado da morte de Gregor Samsa foi ele mesmo por não ter ousado partir.

 

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Loucura de Estimação”, “Eu me possuo”, “O diabo que te carregue!”, entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap. www.stellaflorence.net

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net