Minha mãe é uma namorada! - abrindo o jogo com os filhos: falando sobre o que eles já sabem e só você ainda não percebeu.

Pais e mães, por receio de ainda não ser a hora de contarem aos filhos sobre o segredo de existir um novo amor em suas vidas, justificam seus silêncios afirmando que seus pequenos ainda não estão preparados, prontos, maduros ou fortes o suficiente para saberem que um novo relacionamento está no ar.

minha mae
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Pode-se dizer que o convívio  com crianças nos ensina  rapidinho  que nem sempre são necessárias palavras para explicarmos os fatos da vida para alguém.  Leitor, se você tem filhos e realmente presta atenção no que eles te mostram que sabem sobre sua vida, com certeza sabe do que estou falando.

Com a chegada do dia dos namorados é comum aparecer no consultório, na conversa com as famílias,  a dúvida: ainda não contei para meu filho sobre meu namorado, como vou fazer para sair toda arrumada para jantar na terça-feira!?  E a preocupação não é só de mães, mas de pais que iniciam um namoro após uma separação e que por algum motivo ainda não encontraram as palavras ou a oportunidade para conversarem sobre o assunto com sua prole.

Pais e mães, por receio de ainda não ser a hora de contarem aos filhos sobre o  segredo de  existir um novo amor em suas vidas, justificam seus silêncios afirmando  que seus pequenos  ainda não estão preparados, prontos, maduros ou fortes o suficiente para saberem que um novo relacionamento  está no ar.

Para fazer um contra ponto com essa forma de agir de alguns pais, escrevo aqui o que ouvi em atendimento na clínica: “… as músicas lá em casa eram tristes, só coisa pra chorar. Agora a mamãe está sempre feliz e as músicas também são alegres. Acho que ela está namorando…” Os detalhes variam, mas a criança na maioria das vezes estava certa.  E grande parte delas até hoje ainda não puderam falar sobre isso com seus pais , que geralmente  não sabem o quanto seus filhos já percebem sobre suas vidas após as separações.

Filhos, em grande parte das vezes, percebem as mudanças antes de falarmos delas, pois não se informam apenas com o que lhes contamos.  Utilizando todos seus sentidos: visão, olfato, tato, paladar, podemos dizer que eles  captam  o que precisam do ambiente: enxergam, farejam, sentem na pele, observam as mais sutis nuances e fazem leituras de nosso comportamento como exímios “scanners” , buscando por padrões e reconhecendo as repetições que nos denunciam. O movimento é inconsciente mas agrega fatos mesmo assim. Produzem dossiês por vezes de tão ricos em detalhes que imaginávamos invisíveis.

A sequência de músicas tristes acompanhadas de momentos de choro intenso, olhos vermelhos que logo dão  lugar a outras e mais alegres melodias, sorrisos nos lábios, palavras de carinho  – tudo isso  junto permite a uma criança de 11 anos ou mais inferir que mamãe  – ou papai –  tem um novo namorado. Crianças, assim como adultos,  reconhecem padrões que outrora presenciaram quando ainda viviam todos como uma família e que a mamãe era namorada do papai.

Podemos fantasiar que nossos filhos nada percebem ou mesmo que não estão prontos para essa nova verdade – um namorado (a)!   Mas também podemos aproveitar a proximidade de mais um Dia  dos Namorados e tudo o que isso traz consigo: sorrisos, flores, perfumes, telefonemas, olhares fugidios e…  Falar sobre isso com os pequenos seres que você tem aí  em sua casa . O nível de detalhes da conversa é decisão de cada pai e cada mãe, claro, mas pense assim:  será que não vale a pena dividir com eles o início de um novo tempo em seu coração?

A melhor forma de nos decidirmos sobre algo importante é sempre buscando o máximo de informações sobre o assunto antes de nos posicionarmos.

Ainda em dúvida?  Se sente pressionada (o)  – ainda não quer pensar em apresentar ninguém a seus filhos?

Para aproveitar a noite dos namorados sem culpas, que  tal dar uma olhadinha nesse outro texto que publicamos ?

Vanessa não é só mãe em tempo integral. Trabalha na co-criação de projetos e políticas educacionais que fomentem a emancipação do indivíduo. É professora especializada em inclusão escolar e social com ênfase na formação e acompanhamento de professores em sala de aula. Trabalha em uma escola internacional em São Paulo e, pelas inquietações da vida, fundou com amigos a FabricAções (www.fabricacoes.org.br) Em seus textos publicados aqui, procura partilhar alguns dos tijolos necessários para as pontes que precisamos construir entre nós e os outros, na busca pela nossa autonomia.