Muito além do meu próprio umbigo

O que incomoda seu filho quando o assunto é desigualdade social? E o que ele enxerga além do próprio umbigo?

girl-bicycle-garden-people-outdoor-romantic-young

Sem a fantasia, olhamos no espelho e nem sempre a imagem corresponde ao que gostaríamos de enxergar. O umbigo, lá no centro de tudo, nos hipnotiza: há vida além dele?

O recolhimento da Quaresma nos sugere e convida `a introspecção. O mundo de hoje convida ao excesso, a uma vida em que somos o centro de tudo e de todos a todo momento, época em que nunca tivemos acesso a tanta coisa e ao mesmo tempo nunca encontramos tantos com tão pouco.

Muito pais se empenham em proporcionar aos filhos momentos de contato com a realidade das pessoas que tem acesso a pouco ou quase nada – mesadas doadas aos carentes, roupas que não mais querem cedidas aos menos favorecidos , lanches comprados àqueles que nos estendem a mão nas ruas. Um pouco de alívio para nossa própria culpa por podermos consumir – e os outros não. Um pouco a vontade de nos aproximarmos de uma realidade tão longe – mas ao mesmo tempo tão perto! E um pouco da mistura de não saber o que fazer para reduzir o fosso que existe entre as pessoas em nossa sociedade, fosso esse que nos separa cada vez mais do nosso próximo e que rouba de nossos filhos a chance de conviver com a diversidade que era mais comum quando nós éramos apenas filhos. Muita demanda para uma Quaresma só não? Vamos com calma, estamos apenas começando este bate papo.

Muitos pais percebem que, por vezes, todos esses movimentos só arranham a superfície, que tudo acaba sendo em vão depois de algumas horas de caridade e bom samaritanismo e que seus filhos continuam gravitando em torno de seus próprios umbigos, como é natural para todos que não precisam participar do sustento de sua própria vida em tenra idade.

Pois então… Há um pulo do gato aqui também – tudo que envolve aprendizagem humana está cheio de pulos de gatos, vocês já devem ter percebido.

Lá em casa, desde que fundamos a FabricAções quando o assunto é pensar no próximo, o ponto de partida é sempre o pensamento e a fala do meu pequeno. Isso mesmo, assim como nos projetos da FabricAções , em que o início é sempre o outro, quando discuto com meu filho sobre desigualdade e qual nosso papel no processo, parto do que ele enxerga de desigual em seu dia a dia – o que pode ser o faxineiro do prédio com o sapato furado ou a criança na porta do mercado descalça pedindo comida.

Vamos parar por aqui hoje e sugerir que você faça o mesmo na sua casa. O que incomoda seu filho quando o assunto é desigualdade social? E o que ele enxerga além do próprio umbigo? Se sobrar tempo, divida conosco como foi essa conversa.

Abraço e bom papo

* Photo via VisualHunt
** Clique no perfil da autora para visualizar mais textos. Boa leitura!

Vanessa é mãe em tempo integral, além de psicopedagoga e pesquisadora do psicodrama, da psicomotricidade e da aprendizagem humana. Divorciada, trabalha em uma escola internacional em São Paulo como educadora e, pelas inquietações da vida, fundou com amigos uma associação socioeducacional chamada FabricAções. Em seus textos publicados aqui, procura partilhar alguns dos tijolos necessários para as pontes que precisamos construir entre adultos e crianças no que diz respeito à aprendizagem para a vida. vanessameirelles@fabricacoes.com.br