Até a mulher maravilha... até ela!

A culpa é o ponto de encontro de todas as mulheres separadas.

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Ela conseguiu tudo. Um marido!!! uma carreira!!!! Filhos lindos e saudáveis!!! Afinal, ela era a Mulher Maravilha!
Não foi fácil… mas ela conseguiu!!! Ainda não é fácil. Na verdade é bem difícil dar conta de tudo. Horários sempre apertados, muita correria, muita gente questionando como é que ela consegue?
Nem ela sabe. A vida de super heroína não é um conto de fadas. (Mas acho que a de ninguém é…). Muitas vezes ela se sente culpada por não ter mais tempo com o filho, ou tempo para um jantarzinho romântico com o marido, tempo para o café com as amigas… Tempo, tempo, tempo… Aquele dia em que ficou presa em uma reunião e não chegou na hora para buscar o filho na escola ainda a deixa com um nó na garganta.
Além da culpa tem também as reclamações. O filho reclama que ela não comprou o livro que a professora pediu. A professora reclama que ela não mandou a autorização para a ida ao jardim zoológico. A mãe reclama que ela nunca mais foi visitar. O marido reclama que ela não faz o jantar na hora certa, ou que acabou o papel higiênico. Tudo culpa dela! Lógico!
Além de trabalhar, ser mãe e ser esposa, ela também era a DONA DA CASA. Parece bom, né?! Ser dona…. Mas não é.
Lógico que o marido apoiou a sua decisão de não parar de trabalhar depois que o filho nasceu. Eles eram parceiros, afinal. Dividir as contas era bom para todos, e somando os salários dava para viver bem melhor.
Mas ela era mulher, e a sociedade (e seu marido, sua mãe, sua sogra…) e ela mesma (acreditem!!!!) consideravam que ela era responsável também por todas as tarefas domésticas. Então, obviamente, o papel higiênico, ou a falta dele, era culpa sua!!!
Reunião de pais na escola? ELA
Comprar presente de aniversário para o coleguinha? ELA
A babá não vem trabalhar amanhã? ELA
A festa de fim de ano? ELA
O jantar para o chefe dele? O almoço de domingo? A apresentação de balé? A troca de faixa de judô?
ELA, ELA, ELA E ELA!
O marido ajuda. Não quero ser injusta. Segunda ele pega na escola por que é o rodízio do carro dela. Se tem reunião, e ela consegue avisar com antecedência, ele tenta sair mais cedo do trabalho para levá-los na natação. E se ela pedir, ele até compra o famigerado papel higiênico. Basta avisar. Basta pedir!
Mas sempre que ela não consegue dar conta de tudo, ela se culpa. Se frustra. A ajuda dele custa caro. Cobranças, muitas cobranças. Ás vezes dele, ás vezes dela mesma, ás vezes da sogra que sempre que pode pontua a “teimosia” dela em continuar trabalhando. Egoísmo. As crianças precisam da mãe. O filhinho dela precisa de mais atenção.
Para poder estar mais presente, ela negou promoções, cortou horas de trabalho. Sua carreira estagnou e o salário já não é tão atraente. Mas tudo bem. Vale a pena.
Ela até gosta da correria. Ela é uma boa mãe. Ela é boa profissional. Ela é boa esposa. Ela repete isso como um mantra toda vez que parece não valer a pena. Toda vez que ela destrói as unhas no trânsito por que vai se atrasar de novo…
Talvez ela não seja sempre tão boa. Mas ela tenta. Ou tentou.
O casamento acabou. Talvez tenha acontecido alguma coisa. Talvez uma traição. Talvez dele. Talvez dela. Talvez não exista mais amor. Ou tesão. Talvez finalmente eles tenham entendido que já não tinham nada em comum, a não ser os filhos. E mal se falavam. Não conversavam e rir juntos era tão raro que já causava estranhamento.
Talvez ele cansou de esperar. Talvez ela cansou do cansaço dele. Talvez tenha sido o papel higiênico.
Talvez…
Relacionamentos acabam mesmo. Descobrir o culpado ou pelo menos uma resposta para “o que deu errado?” não ajuda em nada. Apesar de se afundar nessa busca ser quase inevitável.
E agora?
Ele saiu de casa. Levou com ele poucas malas e um monte de mágoas. Levou aquela sensação de que ela conseguiu!!!
Deixou um buraco, uma cama vazia e um coração partido. Medo do futuro e uma solidão avassaladora. Dessas que só uma mulher que um dia teve tudo sabe como é.
Ela nem teve tempo pro luto. Tinha o trabalho, os filhos, a casa.
Ele também deixou as contas para pagar. Ele se recusou a dar pensão para ela. Acho que ele realmente tinha muita mágoa. O juiz concordou. Afinal ela trabalhava. Era justo.
Era?
De repente ela viu que o condomínio era muito alto para pagar sozinha e as férias na Disney não iam mais ser possíveis esse ano. E talvez nem no próximo.
Foi então que ela entendeu o preço de todas as vezes que recusou promoções e propostas de empregos, por que os horários não davam para conciliar com os horários da escola. Ela precisava estar presente para os filhos, para que o marido (agora ex) pudesse crescer na carreira sem se preocupar e poder dar a eles a vida que sempre sonharam.
Ele não abriu mão de nada. Só dela.
Agora ela era ainda mais cobrada por todos. Não tinha mais ele reclamando do papel higiênico, mas tinha toda a sociedade reclamando das ausências dela. Trabalhar e ser mãe e dona de casa e ainda se divertir um pouco para não afundar em lágrimas era prato cheio para todos os “críticos da vida alheia” de plantão.
O novo orçamento exigiu mudanças. Mais trabalho, menos prazeres e muito menos luxo.
Ela se cobrava. Ela se culpava por tudo. Desde o fim do casamento ao fim das idas ao restaurante japonês que o filho amava, mas que era muito mais caro do que ela podia pagar.
A culpa é o ponto de encontro de todas as mulheres separadas.
Se quando nasce uma mãe, nasce uma culpa, quando ela se separa a tal culpa se multiplica em milhares de novas culpas.
Praga que afeta todas as divorciadas. Até a mulher maravilha. Até ela….

 

*Photo credit: giopuo via Visual hunt / CC BY-SA

 

 

 

Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.