Mulheres também somem

Um homem com quem você está saindo te convida, em pleno sábado, para ir a casa dele, dormir na cama dele, tomar café com ele na manhã seguinte (talvez não tão de manhã assim, afinal coisas acontecem quando um homem e uma mulher acordam juntos e nus). O encontro é amplo, é íntimo e deve durar umas 12 horas.

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Um homem com quem você está saindo te convida, em pleno sábado, para ir a casa dele, dormir na cama dele, tomar café com ele na manhã seguinte (talvez não tão de manhã assim, afinal coisas acontecem quando um homem e uma mulher acordam juntos e nus). O encontro é amplo, é íntimo e deve durar umas 12 horas.  Maravilha, você pensa.

Você se anuncia no interfone, algo parece errado, o porteiro demora, dois, três minutos e você lá, parada feito um dois de paus. Finalmente, o estalo eletrônico. Lá em cima, a porta do apartamento 122 está aberta, você entra, mas permanece no vestíbulo à espera de algum sinal dele. E lá vem o rapaz pelo corredor, sorridente, sem camisa, vestindo apenas bermuda e chinelos. Talvez, com aqueles trajes sumários, ele quisesse mostrar a imensa tatuagem tribal nas costas e a outra, menor, na panturrilha, mas o fato é que vocês não namoram há duzentos anos, vocês sequer namoram, e ele te recebe – se é que se pode chamar uma porta aberta de recepção – em trajes absolutamente brochantes, depois de ter te deixado cinco minutos esperando na rua. Começou mal.

A criatura te beija e beija e beija ali mesmo, em pé, e você só consegue pensar que ele deve estar há mais de quatro horas sem comer nada, pois seu hálito não é dos melhores. Quando ele te solta você está zonza, não de tesão, mas de falta de ar. De bom ar.

Uma vez na sala, você se limita a cavar, no sofá, uma vala entre almofadas e colchas a fim de se sentar timidamente. Você espera que ele tenha preparado algo para motivar uma boa conversa (uma música, um filme, um vinho) porém a coisa cheira mesmo é a fucking delivery.

Na cama, os lençóis são os mesmos de ontem, talvez os mesmos de uma semana atrás, você pode dizer pelo cheiro de pele velha que exala deles. Para coroar a noite, ele comete um pecado gravíssimo: antes mesmo de tirar sua roupa, pede que você o chupe. Homens, amores das nossas vidas, chupar não é coisa que se peça quando não há uma profunda intimidade. A gente pode não estar a fim e, nesse caso, vocês levarão uma negativa no meio das fuças ou terão uma mulher chupando vocês com a mesma vontade com que um participante de reality show engole um olho de cabra. Não peçam (ou só peçam quando conhecerem nosso corpo, nosso olhar, nossos humores): quando a gente quiser, a gente faz – e aí faz bem gostoso.

Você, que já passou da fase da submissão faz tempo, finge que não ouviu o pedido do gajo. Ele insiste. Você desconversa. Ele insiste de novo. Você diz “mais tarde” para não ser grosseira, mas ele não se dá por satisfeito. Reclama, chuta um sapato, xinga. Em algum lugar te disseram que quando um homem diz “não” é o fim da conversa e que quando uma mulher diz “não” é o início da negociação. Pois, com você, não: podem transferir essa regra para a longínqua terra de Marlboro, onde é natural homens reclamarem, chutarem sapatos e xingarem a mulher que não quer fazer sexo oral naquele momento. Você se levanta e vai embora.

No dia seguinte, e no outro e até hoje ele continua te procurado e você continua não respondendo às suas mensagens. Sim, mulheres também somem – sobretudo se a delicadeza sumiu muito, muito antes.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net