Na dor não cabe a gente julgar ninguém

A poeira baixou. A vontade de arremessar objetos na sua direção passou. A raiva feneceu. Pode descer da cruz, não vou te atirar mais nenhuma pedra, prometo.

rani
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A poeira baixou. A vontade de arremessar objetos na sua direção passou. A raiva feneceu. Pode descer da cruz, não vou te atirar mais nenhuma pedra, prometo.

Um erro, não tira das suas mãos, o título de melhor cafuné que esse meu cocuruto já conheceu – tão eficaz que me fazia dormir em menos de dez segundos. Não apaga os abraços acalentadores que me deu quando desaguei no teu ombro em dias que o peso do mundo machucou as minhas costas. Não me faz pôr para fora todos os cafés que preparou com tanto amor enquanto eu enrolava na cama. Não rasga o afeto que transcreveu em guardanapos saqueados dos botecos que costumávamos nos embriagar e que até hoje marcam páginas de livros que eu deixo para ler depois.

Uma mancada não tira o mérito dos teus cuidados. Não me faz esquecer das enumeras vezes que você levantou para acender o abajur quando eu reclamava – choramingando – que não conseguia dormir no escuro. Não apaga as noites que me cobria com edredom, nem as manhãs que me acordava com um beijo seguido de um abraço apertado. Não elimina as calorias que ingerimos em domingos regado a sorvete, pipoca e Netflix.

O teu vacilo machucou mais que bater o dedinho na quina de um móvel. Eu chorei, chorei mais um pouco, chorei de novo, mas quando a dor foi embora, me dei conta que o acontecido era uma gota amarga diante de um oceano de felicidade vivida. Esse pingo não foi suficiente para me fazer te odiar, mas foi o chacoalhão necessário para nos fazer entender que não éramos mais aquele casal bonito que matava de inveja os descrentes no amor. A rotina nos engoliu e a ideia de ser par, causava desconforto.

O nosso plural voltou a ser singular – eu aqui e você aí –, mas isso não me impede de continuar te amando e torcendo para que você se encontre. Do lado de cá, vibrarei com cada nova conquista corporativa tua, mesmo achando que existe mais arte na tua essência que relatório e planilhas de Excel. Ficarei feliz em saber que você bateu a suas metas de vida – elas sempre foram tão diferentes das minhas. Enquanto você sonhava em ganhar o mundo, eu só pensava numa casinha no interior onde eu pudesse criar meus filhos longe dos agrotóxicos e da arrogância da cidade grande.

Hoje eu sei que as nossas vidas, tão divergentes, um dia se cruzaram com o intuito principal de nos fazer entender que amor genuíno, é aquele que se mantém intacto mesmo depois do fim de um relacionamento. Amor é continuar admirando o outro mesmo que ele não esteja mais do lado esquerdo da cama. Amor é gratidão. Obrigada por tudo.

Publicitária por formação, ouvinte assídua de histórias de amor e observadora nata. Escrever sobre a pluralidade dos sentimentos é uma necessidade constante. A intensidade que não cabe em mim, transborda e se transforma em palavras, linhas e parágrafos. É assim que eu respiro.