Namorado versus amigos

Uma amiga sua começa a namorar e, como que por encanto, desaparece. Passa-se um mês, dois, três. Você pergunta sobre ela aos amigos em comum e ouve, de todos, a mesma resposta: "Sabe como é: namorado novo..."

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 Uma amiga sua começa a namorar e, como que por encanto, desaparece. Passa-se um mês, dois, três. Você pergunta sobre ela aos amigos em comum e ouve, de todos, a mesma resposta: “Sabe como é: namorado novo…”

A paixão romântica é mesmo avassaladora, compreendo: quando entra em cena não deixa espaço para mais nada e ninguém. Amigos? Família? Trabalho? Fica tudo em segundo plano, ainda que temporariamente.

Mas a paixão vai embora rápido, o amor se instala profundo (num cenário positivo) e é aí que se tem de voltar a ir ao cinema com os sobrinhos, voltar a se dedicar a algo que transcenda e equilibre, voltar a fazer novos projetos de trabalho, voltar a encontrar os amigos. E quanto antes, melhor.

Verdade que há mulheres que cortam os amigos de sua vida de vez por exigência do parceiro. Quem se submete a um namorado ciumento, inseguro ou infantil, daqueles que exigem exclusividade doentia (o que significa “seus amigos não prestam”), vai, cedo ou tarde, cobrar essa conta do parceiro (e de si mesma): ação e reação. Seja Amélia ou Betty, a conta vai ser cobrada através de uma crônica falta de desejo, uma irritabilidade sem razão aparente, uma chatice ranzinza. Se ele for abusivo, você reagirá. (Se você for abusiva, ele reagirá também.) Ninguém ganha.

Não é possível abdicar de algo fundamental impunemente. Amor, amigos, trabalho, família são compartimentos que precisam ser constantemente regados, caso contrário começam a sugar vitalidade dos vizinhos. Se você corta os amigos da sua vida, esse compartimento fica seco e puxa umidade do que está sendo mais regado, nesse caso, o do amor. Isso significa que o compartimento-amor vai ressecar por conta dos sedentos que estão ao seu redor. É impossível manter um oásis no meio desse deserto.

E não adianta fazer uma espécie de megairrigação, juntar todo mundo apenas no seu aniversário e abrir os braços. Além de haver alguns amigos que não têm nada em comum com outros, seria inútil tentar extrair de uma única noite o afeto equivalente a um ano inteiro de amizade.

Em resumo: deixar os amigos de lado por causa de uma relação romântica é um atentado contra essa mesma relação. Manter seus amigos por perto e deixar seu parceiro livre para que ele também mantenha os dele é o mínimo que se espera de um relacionamento decente. O mínimo.

 

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Loucura de Estimação”, “Eu me possuo”, “O diabo que te carregue!”, entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap. www.stellaflorence.net

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net