Não eram os mesmos lençóis

Capítulo 29 32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens

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– Ian, por favor, transa comigo? É serio: você é minha opção número um e eu preciso de você hoje!

O celular chiava: carros, motos, buzinas, vendedores de pamonha. Apertei com força o aparelho ao encontro do ouvido.

– Taí um pedido que ninguém nunca me fez.

– Mas eu tô fazendo. Transa comigo, por favor: é um caso de necessidade extrema!

– Tá.

– Tá o quê?

– Transo.

– Sério?

– É, ué.

Eu, boquiaberta: Ian, minha loucura de estimação, vai transar comigo pela segunda sacrossanta vez, assim, fácil? Eu me torci mais do que toalha molhada para que isso acontecesse e nem um beijo bêbado consegui! Jantei com ele umas dez vezes, fui ao cinema umas cinquenta, chamei pra ver filme em casa umas cem e agora o Belo Adormecido acorda? Há algo errado nessa história. Faz dois anos que Ian se nega a mim e dois anos que eu tento dragar seu corpo, sua alma, seus fósseis, e nada. Já o pedi em namoro, já dei escândalo, já chorei, gritei, briguei, cortei relações, voltei, mandei mensagens exageradas, pedi desculpas. E agora, ele topa transar comigo como quem responde a um memorando? Depois de ter tido tantas oportunidades legais para fazer isso? Mas que desgraçado!

Ou talvez ele tenha resolvido, finalmente, me dar um prêmio pela minha devoção e insistência. Seja lá o que for, eu não deixo nem chuva passar, quanto mais homem.  Quanto mais Ian, meu precioso! Os lençóis, não eram os mesmos em que Cássio dormiu no dia anterior: eu tive o cuidado e a deferência de trocá-los. Não eram os mesmos lençóis. Não eram.

À noite, Ian se demorou observando uma das fotos no meu criado mudo. A proporção de luz e sombra, o ângulo, o abandono das minhas mãos. Um fotógrafo profissional? Sim, foi.

Me aproximei. Colei meu nariz no dele e fiquei ali sem saber se ia ou voltava. Mas Ian decidiu por mim.

– Eu não tenho certeza se é uma boa ideia a gente transar. Da última vez, você ficou apaixonada, foi aquele drama todo e… foi péssimo.

Dei um passo para trás. Ele deu outro.

– A situação não é mais a mesma, Ian. Você não tá com tesão, nem um pouco?

– Não.

Cruzei as mãos nas costas e as pousei sobre as nádegas; dei mais um passo para trás.

– Ok, vamos pra sala.

O que eu poderia fazer? A tortura continuou: eu, claramente rejeitada, tendo de aguentar a provocação da sua cabeça deitada no meu ombro, do cheiro dos seus cabelos subindo, enquanto ele fazia brincadeiras com um sorrisinho infantil de pinup. Espero que Ian nunca sofra um acidente, fique cheio de sequelas e precise de mim para trocar suas fraldas. Espero que ele não termine seus dias num asilo fétido ao lado da minha casa. Espero que ele não perca seu emprego, amigos e família e vá morar debaixo do viaduto sob o qual meu carro passa todos os dias. É bom que Ian nunca precise de mim para nada – porque eu adoraria vê-lo faminto e lhe negar uma côdea de pão, vê-lo dormir ao relento e jogar um balde de água gelada no seu cobertor, vê-lo cheio de fístulas infeccionadas e dizer: “Eu poderia lhe passar uma pomada, mas lembra daquela noite em que você também poderia ter transado comigo? Lembra?”.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net