Não estou falando de sexo

Capítulo 47 - 32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens

australia
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Quem não me conhece, duvida. Quem me conhece, já está tirando da gaveta o lencinho para acenar um adeus no porto de Santos. Âncoras tive muitas, agora chega.  Matéria de turismo nunca foi o meu forte, mas a Selma ficou doente e não pôde fazer o cruzeiro até a Austrália. As outras meninas da redação – as que possuem competência suficiente para montar a matéria toda – ou são casadas e não podem ir por questões que eu não compreendo (nem quero) ou têm filhos e não podem ir por questões óbvias e compreensíveis. Foi assim que meu celular, no sábado passado, tocou às nove da manhã.

Era minha chefe.   – Você pode passar dez dias na Austrália?

No mesmo instante baixou uma Scarlet O’hara e pensei: “Dez dias? Eu posso passar até seis meses na Austrália! E – Deus é minha testemunha! – é exatamente isso que eu vou fazer!”.

Foi assim: um raio, uma abundância de exclamações e um começo feliz.   Às vezes eu tenho a sensação de que os fatos realmente significativos da minha vida estão sendo guiados do alto, por cordas invisíveis. Situações insuspeitas vão se somando a outras até que um feixe brilhante as reúne em perfeita harmonia e eu compreendo: tudo estava orquestrado para me fazer chegar a um determinado ponto.

Eu tinha seis dias para partir – nem um hiato a mais. Subloquei meu apartamento para uma prima que veio cursar a faculdade de Belas Artes em São Paulo. Me matriculei num curso matutino de inglês em Canberra (é mais barato do que em Sydney). Acertei ficar, a princípio por um mês, na casa de Mrs. Valkenburgh, uma senhora estilo Vovó Donalda.

Separei minha parte na venda da casa do aeroporto e abri uma conta conjunta com meu irmão: caso fosse necessário resolver algo aqui no Brasil, ele faria isso. Após alguns gramas de espuma branca nos lábios da minha chefe, vou continuar na revista (posso entrevistar quem eu quiser e trabalhar em qualquer parte do mundo, afinal). Comprei uma mala e uma mochila novas, com costuras reforçadas para aguentar o tranco. Um bom profissional, quem sabe até um aborígene que tatue com martelo, é coisa que depois encontro: ainda faltam sete tatuagens.  E, agora, exatamente agora, estou jantando com a assessora de imprensa da Royal Caribean, que paga minha viagem, e mais nove jornalistas, um mais interessante do que o outro – e não, por incrível que pareça, eu não estou falando de sexo.

Ramalho, mês que vem, vai fazer Paris-Istambul de bicicleta, Alexandre vai fotografar setenta e quatro túmulos na Índia, Luciana vai para a Antártida num cruzeiro sem muito luxo, mas quente o bastante para que as sopas enlatadas não congelem, Cristina vai refazer o percurso de Thelma e Louise, sem despencar no abismo, Cláudio vai em busca das múmias de Chachapoyas, Melissa vai percorrer toda a Estrada Real, a versão brasileira da caminhada a Santiago de Compostela, Pedro vai cobrir as dez maiores paradas gays do mundo, Ellen vai viajar pela Transiberiana, Gisela vasculhará Brasil e Itália em busca da pizza perfeita e eu, além da matéria sobre este cruzeiro, já acertei fazer, na Nova Zelândia, a excursão Senhor dos Anéis e, de quebra, morar seis meses na Austrália. Seis meses, no mínimo.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net