O comitê de desencalhe

Esse comitê é iniciado na maioria das vezes por um elemento mais velho da família, que na verdade pode ser de qualquer idade, raça, cor ou credo.

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Esse comitê é iniciado na maioria das vezes por um elemento mais velho da família, que na verdade pode ser de qualquer idade, raça, cor ou credo. Para facilitar, chamaremos esse elemento pelo termo genérico mais conhecido: “tia velha”. Toda família tem uma “tia velha” (que, como dissemos, pode ser qualquer um, desde a sobrinha até o avô). Essa “tia velha” é treinada nos mais modernos métodos de difusão de informações, e se utiliza das técnicas sutis de contra-espionagem denominadas FOFOCAS.
A coisa toda geralmente começa com um simples comentário. Lá está você, ingenuamente se servindo de um pedaço do bolo do aniversário do primo de terceiro grau, sem se dar conta de que está prestes a se tornar uma vítima. Então alguém, às vezes até inocentemente, comenta que você “parece bem”. Pronto. É o suficiente. Imediatamente, a engrenagem fofoca começa a funcionar. A tia velha aciona seus tentáculos e, cinco minutos depois, você, ainda com o pedaço do bolo na garganta, é submetida a um interrogatório implacável. Todas aquelas pessoas que pouco antes enchiam a sua paciência porque você nunca ia aos eventos da família (o bom e velho “você sumiu! Não aparece nem telefona”) e aqueles parentes com os quais você achava que estava a salvo se transformam de repente em assustadores inquisidores, sedentos por informações pessoais.
O escrutínio é implacável. Todos, ao mesmo tempo, ficam te olhando, querendo saber o que você está fazendo comendo bolo quando deveria estar saindo e “conhecendo gente nova”. A “tia velha” é a pessoa encarregada de colocar todos a par da sua vida amorosa- ou da falta dela. Não procure ajuda entre os entes mais queridos. Sua mãe, lamento informar, é cúmplice. Ela vai negar, mesmo com a óbvia evidência de que só ela poderia ter contado um ou outro detalhe para a sua tia. Acredite, ela vai negar, e provavelmente ainda se zangará com sua ingratidão. Seja lá qual for o lado para o qual vai apelar, você perderá.
Então, para seu próprio bem, nem entre no mérito da questão: o melhor é aguentar o julgamento e ouvir a sentença. Seus últimos fracassos amorosos são vistos como fracassos do clã, e você é uma mácula em uma família até então bem sucedida “acasaladoramente” falando. Sugerimos que seu desejo de comer um último brigadeiro seja substituído pelo instinto de autopreservação e que você se retire do local tão graciosamente quanto uma desabalada carreira permitir. Afinal, em aproximadamente oito minutos (tempo que varia de acordo com a capacidade verborrágica da “tia” em questão), sua tia convencerá a todos de que é um dever coletivo arrumar um novo par para a pobre “encalhada”.
Isso mesmo, vaca ou coitada, você é ENCALHADA!
Mais uma vez, seu telefone passará a ser de domínio público. Se a sua tia frequ?enta a igreja, pode contar que até o paroco fará um sermão sobre você. Já se ela participar de campeonatos de bocha ou tranca, sem dúvida você em breve estará atendendo uma ligação do neto da companheira de time dela (aquele que é um amor e cuja intolerância a leite e a qualquer outra coisa que não seja soja é só um detalhe perto do seu jeito “chiquérrimo” de combinar o sapato de verniz com os suspensórios e os lenços com as iniciais bordadas pela mãe). Para não magoar os sentimentos do pessoal da bocha, você inventa uma doença contagiosa qualquer e desaparece por uns tempos, até que a tia e o comitê passem a fazer ultimatos constantes, tentando arrumar encontros ainda mais constrangedores. Uma prima afastada, com quem você mal conversa, insiste em apresentar o colega de faculdade que te viu em uma foto do ginásio que você nem sabia que tinham tirado. “O rapaz está cursando a terceira faculdade e é muito inteligente. E o melhor é que se interessou muitíssimo por você. Como você é independente, lógico que não vai se importar com o fato de ele não ter um trabalho fixo há mais de nove anos, devido a suas crises depressivas … Afinal, para você, sendo separada e “tudo mais” (nem pergunte … ), é uma super chance!”.
O comitê não desistirá, a não ser que a “tia velha” e um número que poderá ser igual ou maior que quatro dos outros integrantes cheguem finalmente às seguintes conclusões:

1. Você não quer nada com ninguém porque tem o rei na barriga. Por que outra razão dispensaria o gordinho meio careca com lindos suspensórios verde-bandeira?

2. Você pode até pensar que ninguém é bom o suficiente agora, que ainda tem um tempinho – muito pouco- pela frente, com o corpo mais ou menos em dia. Depois, quando todas as coisas (?) começarem a cair, a história será diferente. Mas será tarde demais, e a culpa terá sido toda sua por ter esnobado o pseudo-intelectual desempregado.

3. Você tem um gênio difícil. Já dá para ter uma idéia do que realmente aconteceu na separação!

4. Bem que eles sabiam que havia alguma coisa errada com você! Desde pequena já era estranha. Não dá nem para saber se é ou não … bom, é melhor nem falar. Cala-te, boca.

Essas conclusões sairão de um debate muito acalorado regado a cerveja quente, que é bem provável que ocorra durante o único churrasco da família ao qual você sabiamente deixou de comparecer. Entre uma garfada de carne e uma colherada do molho vinagrete (que, aliás, é “a única coisa decente que a mulher do primo sabe fazer), todos resolvem que “você é um caso perdido e passam a se dedicar a temas mais urgentes, como descobrir quanto a irmã do namorado da prima pagou pela plástica no nariz e quanto será que ela colocou de silicone.

* Photo credit: The National Archives UK via Visualhunt / No known copyright restrictions

**Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização e revisão da autora.

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Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.