Encaixotando a lixarada dele

O Diabo que te Carregue - capítulo 4

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Na primeira vez em que seu ex dormiu fora de casa, depois de decidida a separação, ele levou uma mochila com meia dúzia de roupas. Depois voltou e, desorganizadamente, foi jogando roupas, sapatos, documentos numa mala velha. Promete pegar o resto – e como esse homem deixou restos – em outra oportunidade. É aí que você dança: passam-se os dias e a tal outra oportunidade não chega nunca. Se você quiser limpar a casa da presença dele – e você quer –, terá de arregaçar as mangas e encaixotar tudo você mesma – e é exatamente isso que você faz.

Ao esvaziar as gavetas dele dentro de caixas de supermercado, você encontra dúzias de pacotes vazios de cigarros, isqueiros velhos, fitas de vídeo com títulos como Os trouxas do Bubu ou Tupinambá Forever, relatórios do primeiro escritório em que ele trabalhou, chaves de fenda de cores e tamanhos diferentes, todas imundas, duas tesourinhas enferrujadas, alguns nacos de unhas cortadas em priscas eras e outras quinquilharias.

Você descobre, ao arrastar uma caixa repleta de discos de vinil do século passado, uma grossa, velha e nauseabunda camada de urina seca. Urina provavelmente da sua filha, quando ela estava tirando as fraldas e vivia a fazer xixi em todo o canto. Aquele cheiro te pega desprevenida (como quase tudo na separação) e entra nos seus pulmões como um soco. Aquilo é uma instalação pós-moderna representando o que havia por detrás do seu casamento: urina. Você se senta no meio da sala e xinga a faxineira que nunca arrastou aquela porcaria sequer para uma varredura, mas sua ira se dirige para o dono, mantenedor e usufrutuário daquele monte de tralha: o porco do seu ex-marido.

Separar CDs e livros é um drama: quantos livros dele você adora, quantos CDs dele foi você quem mais escutou? No entanto, para não criar caso, tudo cuja propriedade for dupla, incluindo os livros com dedicatórias para o casal, você põe na caixa dele. Vontade mesmo é rasgar a dedicatória e ficar com o livro, mas quanto menos pontos de atrito, melhor.

Depois de encaixotar sessenta e três revistas pornô das décadas de 80 e 90 (e suas capas amarelas e suas páginas grudentas), suas mãos, unhas, cutículas estão destruídas.

Com um rolo de fita crepe você lacra caixa a caixa e, mesmo reconhecendo três ou quatro itens interessantes nas coisas do seu ex, todo o resto não passa de um monte de lixo – que ele deixou para trás justamente por isso.

Após lhe enviar um aviso pelo celular, você transporta essas caixas todas para a portaria do seu prédio, que possui uma saleta especialmente para guardar pacotes em trânsito. Uma das caixas, porém, cai em cima do seu dedão te premiando com uma unha roxa pelos próximos sete meses. É a promoção “Lembre-se desse dia por muito tempo, querida”.

Você fecha a porta, exausta, mas ainda não acabou. Todos os lugares que foram desovados da presença do seu ex precisam de pano úmido, álcool e muque de estivador. Fios de roupa, cabelos, poeira, tudo que é resto do seu ex vai indo embora. Você se lembra do poema de Drummond: fica sempre um pouco de tudo, às vezes um botão, às vezes um rato. No seu caso ficou uma criação de ratazanas gordas cujos rabos grossos fazem barulho no silêncio da madrugada. Na noite escura da alma são sempre três horas da manhã, Scott Fitzgerald. Fitzgerald e Drummond caminham lado a lado numa alameda: é o delírio do cansaço. Você precisa dormir e relaxar o corpo. A alma, não tem jeito, continuará acesa em agitados pesadelos, tão rápidos e confusos que você nem conseguirá atinar sobre seus significados.

No dia seguinte, ao contemplar a casa limpa e silenciosa – as crianças foram dormir com ele –, você se dá conta de que a limpeza física não pôde organizar tudo. Realmente ainda restou um rato, bem dentro de você.

 

 

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*Photo credit: C1ssou via VisualHunt.com / CC BY

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net