Cabides Esqueléticos - Raiva, saudade e lágrimas incontroláveis

O DIABO QUE TE CARREGUE - capítulo 5

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“O diabo que te carregue!” por Stella Florence
(romance sobre separação)

Capítulo 5 – Cabides esqueléticos

Enquanto lava a louça, você se lembra da piada do camponês com um bode dentro de casa. Na Rússia antiga, o camponês vivia num casebre paupérrimo, pequeno e desconfortável para os seus muitos filhos. Lá foi ele pedir ajuda ao czar que escutou os queixumes do mujique e decretou: não se preocupe, a solução chegará em dois dias. O camponês, não cabendo em si de contentamento, retirou-se do palácio e voltou para casa. Dois dias depois, lá veio uma carroça com um bode e as ordens do czar: o camponês estava obrigado a dividir a casa com o animal por período indeterminado. O mujique, sem nada entender, obedeceu à ordem real. E assim, os dias e as semanas foram se passando. O bode fedia, babava, soltava seus excrementos e flatos por toda a casa (que era minúscula), mascava o recheio dos colchões e os cabelos das crianças, um horror. Mas ninguém podia tirar o bicho de lá. Seis meses mais tarde os enviados do czar apareceram com uma nova mensagem para o camponês: “Neste dia, o czar cumpre sua promessa e, ao libertá-lo da obrigação de viver com o bode dentro de casa, torna suas condições de vida muito melhores.” De fato, o camponês não só passou a achar sua casa maravilhosa, como até saudade sentiu do bode.

Ex-marido é um bode que foi embora e, apesar de não mais haver mais resmungos contínuos por qualquer tolice e toalhas molhadas em cima da cama e sapatos chulezentos no meio da sala e xícaras de café nas estantes e cuecas no chão do banheiro, estranhamente, você sente sua falta.

Logo após empacotar as coisas dele, limpar a casa, dispor os móveis em posições diferentes, mudar as fotos nos porta-retratos, você se depara com aquele vazio que te faz chorar ao abrir um armário e encontrar apenas dois ou três cabides esqueléticos deixados para trás. Cabides esqueléticos que só trazem medo, insegurança e dor.

Separar-se era o que você queria, então por que a herança física do seu ex (o armário vazio, a gaveta do banheiro vazia, as prateleiras vazias) te deixa tão mal? Como na piada, você se acostumou com o bode dentro de casa e agora sente sua falta. Ah, mas ele tinha qualidades, você pode dizer. Sim, qualidades todos têm, mas de que te servem as qualidades do seu ex-marido? Se os defeitos dele não podem mais te ferir – pelo menos não mais o dia inteiro –, também suas qualidades não te acrescentam nada. Ele é simplesmente alguém que foi embora.

Uma das primeiras e mais lancinantes dores que existem após a separação é justamente essa: olhar para os espaços vazios em casa e sentir falta da presença física dele, do pé quente, da prontidão para ir ao banco, da conversa fiada ao ver TV. Pois é. Seria ótimo se houvesse uma pílula ou uma fórmula contra lágrimas indesejáveis defronte a uma cadeira vazia, mas não há. Também não adianta se concentrar nos defeitos do seu ex e fazê-lo parecer uma espécie de bode absoluto.

Parece não haver saída. Você olha e vê um beco onde tudo é maculado pelo bolor. Quem sabe, um dia, tudo, ou pelo menos quase tudo, possa ser razoavelmente purgado nesse beco escuro: a raiva, que é inevitável, e a saudade, tão inevitável quanto.

 

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*Photo credit: arileu via Visualhunt / CC BY

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net