O entulho do passado

Só há duas maneiras de viver e, por consequência, apenas dois tipos de pessoa no mundo: o tipo que se acorrenta ao passado e o que se projeta rumo ao futuro.

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Photo by ian dooley on Unsplash

Só há duas maneiras de viver e, por consequência, apenas dois tipos de pessoa no mundo: o tipo que se acorrenta ao passado e o que se projeta rumo ao futuro.

Este raciocínio me alcançou ao refletir sobre o hábito que tenho de não acumular coisas, de guardar apenas o essencial, como documentos e alguns poucos itens afetivos. Parei para pensar se eu estava errada, se estava sendo imprudente em relação às necessidades futuras, afinal, nunca sabemos se vamos precisar daquele sapato marroquino cujo pé solitário encontramos numa arrumação e que temos certeza de que o outro pé está por aí em algum canto. Pensei, pensei e cheguei à conclusão de que eu não estou errada: mesquinharia atrai mesquinharia.

Pessoas que pautam sua vida pelo passado mantém tralhas, acumulam trapos, valorizam quinquilharias inúteis, se recusam a doar uma camiseta que seja, não se desfazem de uma minissaia de couro porque um dia – ah, sim: um dia! – sua filha poderá usá-la. O mais curioso é que a ideia de se livrar do entulho ao qual se agarram não causa uma sensação de liberdade, mas, ao contrário, faz com que elas se sintam inseguras.

Antes fosse apenas o lixo físico que se recusa a sair de cena… Há também o lixo emocional que se acumula em pilhas mais altas que o Himalaia. Há comportamentos dos quais não se abre mão mesmo sabendo que eles, postos em prática, só causaram dor e sofrimento.

Uma cabeça que se mantém evocando constantemente o passado consegue construir um futuro? Ainda mais: consegue construir um futuro com alguém? E mais ainda: consegue construir um futuro romântico com alguém em bases novas e talvez mais felizes? Ou essa pessoa vai repetir os mesmos passos, manter os mesmos comportamentos e, por consequência, alcançar, mais uma vez, para sua própria decepção, os mesmos resultados?

Passado, para mim, serve para escrever livros e tirar lições. Não, eu não quero um pé do sapato marroquino que um dia talvez me seja útil quando eu encontrar o outro pé. Eu vou me desfazer dessa inutilidade e trabalhar para comprar um novo par de sapatos marroquinos, caso um dia eu precise de um. Esta é a energia que eu quero lançar ao meu redor.

A luz não pode entrar num quarto cheio de entulhos (parece óbvio, mas não é). Talvez a luz nem chegue perto desse quarto, talvez ela fique ressabiada ao sentir o cheiro rançoso de um espaço tão ocupado, tão repleto de tudo que não é luz. De qualquer maneira, há apenas dois e não mais do que dois caminhos a escolher: ou abrir espaço para a luz entrar ou continuar arrastando tralhas vida afora.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net