O hábito de reter o choro

32 - 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens - Capítulo 4

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Photo credit: liss_mcbovzla via Visualhunt.com / CC BY-ND

O corte. Comprei algumas facas novas ontem e, distraída, manuseando-as como se fossem as de fio gasto, acabei cortando o dedo ao descascar uma laranja. Corte fundo, fino, ardido. Até aí, nenhuma novidade. Antes, porém, que o filete de sangue me colorisse a pele, antes de soltar a faca afiada, antes mesmo de articular um gemido, eu, num átimo de instante, segurei o choro.

Então parei, me estarreci. Quando foi que engolir o choro se tornou parte do meu instinto, como contrair as pupilas diante da luz? Como isso pôde acontecer? Sim, porque para que algo faça parte das suas reações instintivas, sem qualquer condução do raciocínio, é preciso que você o tenha repetido à exaustão. Quantas foram as vezes em que eu quis rebentar de dor e me mantive impávida? O mais terrível é que eu aprendi a me manter impassível diante de mim mesma. Não havia ninguém na cozinha, nenhuma presença a me julgar, nenhuma criatura que me forçasse a manter as aparências: eu poderia berrar, zunir, espernear, no entanto apenas fingi que nada havia acontecido.  Na teoria do Grito Primal chamariam isso de split: você se desconecta dos sentimentos que causam dor – e cria, a partir desse momento, uma robusta e corada neurose. “Neurose consiste em ser quem não se é a fim de se conquistar o que não existe.”

Quanto de dor um ser humano aguenta antes de enlouquecer – supondo que a loucura seja o último refúgio dos acuados? Quanto de mágoa se consegue empilhar num corpo? Me lembro da primeira vez em que segurei o choro por causa de um homem – é claro que não foi a primeira, mas ficou marcada na lembrança dessa forma. Marcus era um colega de cursinho cuja paquera rolava há meses. Quando finalmente transamos, à tarde, na casa dele, meio às escondidas, ele me disse na porta do elevador: “Você sabe que foi só sexo, né? A gente precisava matar a vontade”. Eu apertei minha mochila ao encontro do peito e respondi: “Claro”. Quando a porta do elevador fechou, porém, senti os olhos umedecerem. Sacudi os cabelos e corri para o prédio da minha melhor amiga na época: “Adivinha? Acabei de transar com o Marcus, não é o máximo?”. Não, não era o máximo. Era o mínimo, mas eu estava tentando me manter à tona.

Penso que se eu conseguisse chorar feito bebê quando leva susto, com a boca bem aberta e os pulmões bem inflados, talvez fosse menos árduo viver. Talvez eu fosse mais cortês no trânsito, mais calma nas filas de banco, mais paciente com a minha família se, a cada decepção, eu pudesse, sem lasca de censura, sentar no chão e abrir o berreiro.

Lembro que dois anos atrás, no trabalho, uma pilha de pastas se desequilibrou na estante e caiu sobre a minha cabeça. Umas quinze, vinte pastas lotadas de papel. Eu me protegi com os braços, não cheguei a me machucar. A cena, porém, foi tão cinematográfica – mais para pastelão do que para drama – que a redação toda veio me acudir. Então, amparada pela desculpa do susto, eu me permiti chorar bem uns dez minutos ali mesmo na minha baia. Mas até quando eu terei de ficar à mercê de um bom motivo?

O hábito de reter o choro, disfarçar a dor, colocar band-aid nas feridas, tem me conferido uma aparência de salubridade enquanto que por debaixo dos curativos meus talhos estão apodrecendo. E eu continuo segurando bilhetes na porta do teatro para um homem que não chega nunca, nunca, nunca.

Preciso fazer alguma coisa.

 

 

Já leu o capítulo 3?

Se dar ao respeito

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net