O melhor passo para trás da minha vida

Pensar em acabar com a própria existência é um extremo. Parecia que nunca chegaria lá, mas cheguei. A apenas um passo.

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Pensar em acabar com a própria existência é um extremo. Parecia que nunca chegaria lá, mas cheguei. A apenas um passo.

Eu saía da sessão de terapia. Seguia a pé para o apartamento onde morava, a cerca de 1 km de distância daquela fatídica sala comercial onde acabara de falar durante uma hora para as paredes, e talvez para a psicóloga. Parecia que estava atravessando camadas gelatinosas sucessivas. Saí de uma e colava em outra até perfurar sua superfície grudenta. Não me lembro de como entrei no prédio, mas decidi subir os 12 andares pelas escadas. Talvez fosse uma tentativa desesperada de sentir minhas pernas, pulmões e coração, para ter alguma sensação de estar viva.

Ao chegar no meu andar, percebi as portas do fosso do elevador – em manutenção – abertas, com uma fita amarela na altura da minha coxa delimitando o espaço entre a laje e o buraco, na qual me escorei por aquela hora que passei ali. Lembro das pontas dos meus pés parecendo flutuar sobre os mais de 30 metros que separavam o meu piso e o térreo, da corrente de vento que vinha contra o meu rosto me fazendo cerrar os olhos e do vazio que sentia. Era só dar mais um passo adiante. Só isso. Tudo acabaria ali. Quem sabe a dor do impacto do meu corpo contra o chão fosse mais interessante do que aquilo que eu estava sentindo.

Algum interfone tocou. Foi como um alarme que me fez acordar. Entrei em casa ainda tonta, sem entender o que estava acontecendo. Liguei o chuveiro, sentei e chorei. Chorei muito.

Hoje, com meus 39 anos, olho para este episódio e repenso tudo o que passei depois daquilo. Não teria me dado a chance de superar aquela depressão, ou de ter aberto a minha janela por mais de 2500 outras vezes e dar bom dia para o céu, nem conhecer pessoas queridas ou reencontrar amigos. Não visitaria lugares maravilhosos ou saboreado pratos divinos, nem mesmo ter ouvido falar da pitanga vermelha. Tantas rolhas e tampas de garrafas não seriam abertas por mim. Não teria chorado de coração partido nem sequer cuidado das borboletas que habitam o meu estômago. Não ouviria minhas músicas preferidas ou conheceria tantos outros talentos, e nem os filmes que amo, tampouco meus queridos livros. Não conheceria o sabor dos beijos que dei, nem gozaria do prazer que tive com homens que amei.  Não teria provado do gosto amargo da derrota, de morar uma semana no carro, muito menos comemorado minhas vitórias. Não finalizaria telas que havia começado. Não veria mais os outonos. Não teria o entendimento das minhas razões. Não haveria chance de sentir a paz interior depois de ter perdoado a mim mesma pelos erros que cometi, e nem de me livrar das culpas que carregava. Sairia desta vida sem gestar, parir e criar o meu filho Romeo. E, se me rendesse ali, não conheceria o maior amor de todos: o amor próprio.

Um passo para trás pode nos ajudar a seguir adiante. Ou nos salvar.

Camila Morita é formada em Arquitetura e Cenografia e dedica-se à ilustração e pintura desde 2007. Sua obra passa por várias fases e representa cada circunstância marcante em sua vida, resultando em séries intimistas e com um plano de fundo onírico. Para complementar estes grafismos, utiliza de textos para concluir e reorganizar os próprios pensamentos e devaneios.