O pão nosso de cada dia

Na próxima vez que entrar numa relação, fique atenta: carência é armadilha, aparência não sustenta, pressa mantém a alma faminta. Foque no pão. “Jiló? Não”.

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Você entra numa padaria, vai até o balcão e pede seis pãezinhos. O aroma no ar antecipa o prazer, você já se vê lambuzando uma manteiguinha que derrete ao menor contato com o pão quentinho. Imagina-se dando uma mordida naquela crosta crocante, ouve até o barulho dos dentes cravando, vislumbra os farelos e a sua felicidade. Então, chega o atendente sorrindo e fala: “Olha, moça, não tem pão, só tem jiló”. Jiló? Isso mesmo, ele diz, “o jiló está fresquinho, dá pra fazer cozido, frito, colocar na sopa”.

Você quer pão, não quer jiló. Aliás, você odeia esse fruto amargo, gosmento, não pode nem chegar perto. Que raio de padaria é essa que, em vez de pães franceses vende jiló? Você dá meia volta, injuriada e, obviamente, procura outra padaria. Uma que forneça exatamente o que você procura. Afinal, você veio a esse mundo pra ser feliz, certo?

A pergunta que não quer calar é: por que você não faz isso também quando o assunto é relacionamento? Muitas vezes, conhecemos uma pessoa que não tem nada, absolutamente nada a ver com o que buscamos. Tão diferente quanto o pão do jiló. Tem qualidades outras, claro, todos têm. E com certeza apetece o paladar de alguém. Mas não o seu. E o que você faz? Embrulha e leva.

Você quer um pão atencioso e o jiló não te dá bola. Quer parceria e o cara mora em outra cidade. Preza a confiança e sofre com o ciúme doentio dele por você. Ama sua independência e arranja um controlador. Adora compartilhar e namora um egoísta. Tantas variáveis que não combinam, não se encaixam. E você vai ficando, vai nutrindo esse relacionamento que não alimenta sua alma, essa relação acomodada, incômoda, por pura preguiça de caminhar até a próxima padaria. Por medo que não haja outra opção nas proximidades. Por receio de passar fome. Hello! Mais vale um jejum do que uma indigestão.

Faça a sua lista de compras. Anote suas preferências, sobretudo os valores morais que o seu pretendente deve ter e coloque a folha num local bem visível. Quais são as características que você mais preza? O que é inaceitável, inadmissível, inegociável? Não faz mal se, ao longo da jornada, você abrir mão de um item ou outro, flexibilidade faz parte. Não tem pão sete grãos? Vai o integral mesmo. A essência da sua busca não muda. A consciência do que você quer para si mesma é seu foco. “Tanto faz” não faz parte do seu vocabulário emocional.

Na próxima vez que entrar numa relação, fique atenta: carência é armadilha, aparência não sustenta, pressa mantém a alma faminta. Foque no pão. “Jiló? Não”.

Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.