O PAPEL DE PAI

Se não existe mais “papel da mulher” e “papel do homem”, tampouco existe o de “pai” e “mãe”. O novo papel (agora unissex) é (ou deveria ser) o de “educador”. E para tanto, basta ter interesse em exercer.

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Ao longo da minha carreira de mãe solo, cansei de ouvir “mãe não deve fazer o papel de pai”. Ontem, numa conversa entre amigas, o assunto veio à tona novamente. E despertou meus vulcões. Cá pra nós, esse papo já está velho, não? O que é “papel de pai”? Dar bronca, colocar limites? Papel de pai existia quando a mulher não trabalhava fora, cuidava da casa e dos filhos, dava banho, almoço, ajudava na lição, buscava e levava na escola, no médico, beijava o machucado, ninava no colo, contava historinha pra cria dormir. Você, pai do século XXI, que faz tudo isso, se identificou? Pois é.

Se não existe mais “papel da mulher” e “papel do homem”, tampouco existe o de “pai” e “mãe”. O novo papel (agora unissex) é (ou deveria ser) o de “educador”. E para tanto, basta ter interesse em exercer.

Ao homem de hoje está permitido: expressar sentimentos, brincar de boneca com a filha, cozinhar, lavar pratos, trançar cabelos, fazer o dever de casa com as crianças, trocar fraldas, dar o primeiro banho, se fantasiar de Fada do Dente… Você entendeu o espírito da coisa.

Chega, né? Chega de dizer à mãe solo o que ela pode ou não pode fazer. O que deve ou não deve ser. Ela que já se esforça tanto, já se desdobra em quinze. Se o pai não incorporar o “papel” dele, entenda-se dividir a metade dos cuidados com os filhos que tiver, é óbvio que alguém fará todo o esforço em dobro. Não porque queira, nem porque ache heroico, legal, empolgante. Simplesmente porque alguém tem que fazer! Educar filho dá trabalho e, se só há um progenitor assumindo de fato esse compromisso, é dele o suor dupli, tripli, quintuplicado. Independentemente do gênero.

Agora, vínculo paterno é uma coisa impossível de substituir. Ou se tem, ou não se tem. Ou se cria, ou não se cria. Isso sim, cabe ao pai: a responsabilidade de se ligar emocionalmente ao seu filho. De construir uma relação de parceria, respeito, exemplo e amor. Ninguém fará por ele, nem que esse alguém se transforme num polvo. Vínculo afetivo é de cada um e o do pai com o seu filho, é dele. Esse é o único papel que a mãe não deve fazer.

Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.