O que mais você levou?

Minhas insônias me diziam que não tinha mais jeito. Você levou meu sono. E o meu travesseiro preferido. O que mais você levou?

juju

E em um dia surpreendentemente frio de primavera, você se foi. Assisti em desespero quase enlouquecido seus passos até a porta. Perdi a noção do tempo. Seus pés se moviam rapidamente mas o curto caminho do quarto até a rua pareceu durar horas. longos minutos se passaram enquanto você tentava encontrar a chave de casa no bolso da calça. Eu chorava. Me apoiando na parede para não cair. O chão parecia um buraco negro me puxando para sua imensidão. Você destrancou a porta. Colocou a chave no bolso e saiu.
Fiquei esperando um último olhar. Daqueles que são capazes de aquecer a gente e dizem “eu te amo. se cuida”. Mas você não virou. Você não olhou pra trás e nem deu um longo suspiro na soleira da porta, antes de atravessar a linha que separa meus braços e a nossa vida do mundo lá fora.
Acho que você levou o chão com você. E quando a porta bateu eu caí. Nem tentei me segurar de pé.
Você levou meu orgulho. Minha dignidade eu já tinha perdido nas últimas vezes que te implorei pra ficar.
Você levou muito mais do que pensa.
E nos dias que se seguiram, eu me afundei cada vez mais em lama e mágoas.
Chorei tanto que mal conseguia abrir os olhos. E nem precisava. Não levantei da cama. Não atendi telefone. E durante alguns dias, esperei ansiosa a sua volta. Mas você não apareceu. Nem ligou. Minhas insônias me diziam que não tinha mais jeito. Você levou meu sono. E o meu travesseiro preferido.
O que mais você levou?
Os dias que se seguiram foram os mais sombrios. Decidi sair também e esquecer o que um dia fomos nós dois. Nossa casa, nossa cama, nossas fotos. Sentei no chão durante dois longos dias, separando minhas coisas das suas, desgrudando meus sorrisos dos seus. Me odiei por não gostar de vinho, a única bebida que tinha na geladeira. Enrolei um cigarro. Você não me deixava fumar em casa. Odiava o cheiro. Eu aceitei. Mas agora já não importava.
48 horas sem comer e tirando breves cochilos no chão, terminei o móvel da sala. O último. A casa tinha se transformado em um labirinto de caixas e o cheiro de fumaça tomava conta de tudo. Deixei escapar um sorriso imaginando sua cara de reprovação. Olhei para as caixas. Todas tinham seu nome. Suas roupas, seus discos, seus filmes. Suas coleções, suas manias e seus sapatos. Onde estavam as minhas coisas?
E foi então que, ali sentada no chão, rosto inchado e corpo exausto eu entendi que você não levou muita coisa de mim. Eu nunca te dei muito.
Percebi que me transformei nesse ser sem graça, incapaz de causar emoções e loucuras. Eu era quem você queria que eu fosse e você não me quis. Que irônico. Entendi que era impossível amar alguém que não se amava!
Ali eu encaixotei seu último objeto inútil e dentro da caixa deixei o que restava do meu amor por você.
No dia seguinte sai de casa. Levei o pouco que trouxe comigo. Não chorei e não olhei pra trás. Mas deixei um bilhete junto com a minha cópia da chave.

Não te amo. Se cuida! Seja feliz.

Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.