O REI DA SELVA - O diário de Verônica Volúpia

Pra que esperar um ano inteiro para ser feliz outra vez? Descanse. Respire. Renove as energias. E vamos pra avenida que, se a vida é um carro abre-alas, eu quero mais é ser destaque.

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Está certo, o Carnaval acabou, você se esbaldou, não sobrou um fio de cabelo no lugar pra contar a história. Os amores de verão não subiram a serra e agora tudo o que quer é colocar as pernas pra cima e se preparar pra cair na rotina de novo, certo? Errado. Nada de pendurar as fantasias no armário. Pra que esperar um ano inteiro para ser feliz outra vez? Descanse. Respire. Renove as energias. E vamos pra avenida que, se a vida é um carro abre-alas, eu quero mais é ser destaque.

O Carnaval é uma cama elástica, em todos os sentidos: você pula, pula, pula e pode escolher cair semimorta, voltando à folia só no outro verão, ou usá-la como trampolim para saltos mais altos, mais intensos, alucinantes. Para muitos, o Carnaval é onde tudo acaba. Para mim, é onde o ano efetivamente começa. É uma espécie de termômetro do que vem pela frente, por trás, aquela coisa toda. E se as altas temperaturas desse último balacobaco forem um parâmetro, ula-lá, ano que vem vai pegar fogo.

Acreditem ou não, uma linda bola dentro do meu Carnaval foi uma bola fora. Peraí, deixa eu tomar um golezinho de champanhe que já conto. Hum, coisa boa, bem geladinho. Melhor, só se estivesse acompanhada, mas estou na etapa descanse, respire, sabe? É preciso reenergizar para estar inteira pra outra. É claro que nem sempre o destino nos deixa desacelerar, às vezes novas oportunidades surgem mais brilhantes que purpurina, pululam o ar a sua volta, grudam em todos os poros da sua pele implorando para você dar aquela última suadinha da felicidade, dá pra resistir? Não dá. Aí, o melhor a fazer é se abastecer de energia direto da fonte. Foi o que aconteceu comigo.

Errei o meu andar, no hotel. Pode? Desci do elevador com o elevado poder de distração que as recordações calientes nos capacitam, parei em frente à porta que deveria ser a do meu quarto e quando tentei abri-la, nada. Nem se moveu. Não precisei muito para me dar conta que estava no andar errado, mas naquele ínfimo segundo entre refletir e dar meia-volta, a porta se abriu. Plim. Um coroa grisalho, charmosérrimo, surgiu na minha frente. Aquilo não era uma porta de quarto, era um portal do paraíso. Teria vaga para pecadoras?

Instintivamente, sorri. O sorriso é uma espécie de borrifador inebriante, paralisante, quando você não souber que artifício vai usar para capturar a caça, mas não quiser que ela fuja enquanto você pensa, sorria. Naquele instante sutil enquanto analisa o outro e inconscientemente capta suas preferências, naquele milésimo de tempo em que o seu cérebro decodifica as mensagens emitidas pela pupila alheia, pelo tremelicar do músculo que repuxa a orelha, pelo lábio que se contrai imperceptivelmente, o seu sorriso vai entretê-lo o suficiente para que as demais partes do seu corpo assumam as rédeas da sedução e se empinem e se arrebitem e se movimentem e se ofereçam antes mesmo que ele tire os olhos de dentro dos seus olhos para cair no seu decote, cintura, quadril, fendas e abismos outros.

Quer outra vantagem? Sorriso atrai sorriso. Desarma. É muito raro você sorrir para alguém e não ganhar um de volta. Foi o que ele fez, acompanhado de um “oooi”, que foi quase uma reverência, um cortejo de mestre-sala. Ótimo, ele estava sozinho, detectei. Ninguém dá um oi meloso desses se estiver acompanhado. É na escorregadela sinfônica de um homem que nós mulheres captamos o cheiro de concorrência no ar, é muito menos o que ele diz, do que como pronuncia. Se houvesse uma mulher no recinto, ela já estaria ao lado daquele pedaço de mau caminho, puxando-o pra dentro. Mas não havia ninguém, havia eu e ele. Um sorriso e um oi, tão somente.

“Ou você está no meu apartamento, ou estou tentando entrar no seu”, brinquei. Ele foi rápido: “Você pode escolher, qual das duas opções prefere?”. Mais rápido do que eu estava preparada. Ele deu a letra: adora mulheres difíceis. Quando um homem abre as portas, abre não, escancara assim, a última coisa que ele quer é que você aceite o convite para entrar. No fundo, está testando você. Já deu a letra: ficou a fim. É claro que vai amar se você topar – ao invés do que as mulheres pensam, homens adoram mulheres fáceis. Mas ele vai subir pelas paredes, não vai descansar enquanto não tiver você, se você der as costas e ele tiver que conquistá-la. Se obrigá-lo a provar para si mesmo que é “o” cara, que é “o” bom. Por que você acha que eles contam vantagem pros amigos? É um rugido de leão. Ele queria ser o rei da minha selva? Pois que viesse bem armado. A caçada começou.

“Eu prefiro eu no meu apartamento”, respondi, e arrematei estendendo a mão para ele beijar: “Verônica Volúpia, muito prazer”. “O prazer é todo meu”, beijou. Vocês me conhecem, longe de mim bancar a pudica. É claro que eu ia dar pra ele. Mas não é todo dia que a gente cruza com um bom jogador. Pra que comer cru se a gente pode temperar, não é mesmo? Confesso: não sei mandar ver sem uma bela pitada de pimenta. E cá entre nós, me excita horrores um joguinho bem disputado. “Posso convidar você para um drinque mais tarde?”, ele perguntou depois de se apresentar. “Porque não?”, sorri. E saí rebolando fatidicamente.

Uma refeição é muito, muito mais saborosa quando há o ingrediente fome. Para sexo, vale a mesmíssima coisa. Deixe ele entrar em processo de inanição. Deixe-o implorar por migalhas de você. Deixe-o sem conseguir pensar em outra coisa. Então, ofereça-se com uma maçã na boca numa bandeja de prata. E banqueteiem-se. Só cuidado para não passar do ponto e ele perder a vontade, ou pior: a autoconfiança. Ele pode optar em enganar a fome com lanchinhos rápidos e, quando chegar a sua vez, você não vai passar de um tira-gosto banal. Não, não queremos ser um tira-gosto banal. Queremos ser iguaria rara.

Tem gente que vai ao sol e pega um bronze. Eu pego bronzeados. Havia passado o dia na praia com dois kyte-surfistas deliciosos que me levaram para voar alto nas ondas da minha imaginação, e voltei para o hotel para tomar um banho e fazer as malas. A ideia era descansar um pouco, mas, afe, quando recebi o buquê de rosas vermelhas enviado pelo cinquentão charmoso, com um convite para encontrá-lo no restaurante, me derreti. Para dormir a gente tem a vida eterna. Muito melhor sonhar acordada.

Adentrei o salão com uma rosa na mão, para que todos soubessem que eu tinha dono. Ele entendeu o recado, claro, e gostou. Passamos momentos agradabilíssimos conversando e nos provocando, sem pressa. Adoro homens inteligentes e ali estava um exemplar raro. Megaempresário da moda, tinha o dom de me colocar em saias muito mais justas do que a que eu vestia. Eu devolvia com sutilezas e respostas de duplo sentido. Ele gamava.

Como num ringue erótico em que cada ponto era celebrado com um brinde, a coisa começou a esquentar. O safári estava chegando ao fim. Ele pegou na minha mão, pediu a conta. E me acompanhou até a porta do meu quarto. “Olha que coisa, agora eu que errei de andar”, penetrou-me com o olhar. “Errar é humano”, respondi. E puxei-o pra dentro. Literalmente.

*Trecho do livro “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.
O Diário de Verônica Volúpia – As picantes confidências de uma libertina moderna, ousada, sexy. Sem tabus.
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Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.