O sétimo cara, o cafajeste da minha vida

Foi preciso um cafajeste pra me fazer entender quem eu devia amar.

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Eu havia me separado, com todas as dores que uma partida traz: incertezas, desconfianças, inseguranças, medo, solidão.

Mas o que é solidão quando se tem internet? Resolvi que seria mais fácil esquecer o amor se arrumasse um substituto, assim minhas amigas divorciadas haviam me dito.

É mais ou menos como comer angu quando se está com fome de pizza: depois que o estômago está preenchido, não faz diferença o que está lá dentro. E na verdade, quem garantia que na verdade não seria fome angu, saciada por pizza?

E afinal, tudo é relativo (e comparativo).

Baixei o aplicativo, fiz o perfil de maneira atrapalhada, e comecei a dar match na rapaziada. Notei que só vinham uns jovenzinhos, procurei as configurações e logo coloquei minha faixa ideal: dos 38 aos 46. Aos 31 anos, preferia os homens de têmporas brancas ou grisalhas.

Depois de engordar 20 kg num casamento e me sentir a Glória do Madagascar, resolvi que um glutão eu não queria, mas não desejava ser indelicada. Um “rato de academia” também não era minha praia. Os viajados demais me cansavam lá pela décima quarta foto nos Alpes, Andes, mergulhando, voando, catando coquinho e o escambau. Caramba, acompanhar um cara desses ia custar o que ganho no ano, minha vida seria pagar fatura da CVC.

Por fim, meu perfil ficou assim:

Separada, uma casal de filhos… boa na cozinha, péssima com a louça. Sedentária, bem acima do peso e querendo um par que não piore a situação, então se você é um bom gourmet, adora o sofá e não sintetiza vitamina D, vou lamentar que você seja bacana, mas quero mudar meus hábitos. E se você é marombado e só quer mais uma aluna na sua academia, também não vai rolar… Não quero um personal, quero alguém consciente. Ah! Se você escreve “concerteza, nóis, a gente, menas, naum, aki”, vai no X!”

E assim começou a saga da busca por um homem legal, honesto, especial, sincero, blá, blá, blá…

O primeiro foi educado, escritor como eu, um “bom dia” aqui, um “boa tarde” ali, algo sobre contos, poesias e literatura. Amei! Apresentou-me um livro de Liev Tolstói: Anna Karenina. Leu meus contos, corrigiu, gostou do mais realista e autobiográfico, talvez leia este. Li os dele também, me encantei. Ficou amigo, nunca mandou um “nudes”, sempre cordial e ameno. Gostei dele! Pretendo preservar. Gosto de gente assim.

O segundo se apaixonou, passou uma noite inteira falando comigo ao telefone, já estava de manhã quando desliguei. Interessante, mas tem uma risada de homem mole, fraco, sei lá… Não curti, mas curti. A doçura! Minha eterna mania de tentar querer quem se interessa por mim. Falei por mais um tempo, mas não conseguia despachar ou mandar pra plutão, ele parecia bom demais pra ser verdade, fez conjecturas sobre nosso futuro e vivia dizendo que eu deveria me mudar para a cidade dele, o bairro dele, para a casa dele. Isso me assustava. Sumi! Ia magoá-lo de qualquer maneira mesmo. Também não poderia confiar em um homem que deseja se casar comigo depois de três dias.

O terceiro e o quarto se desinteressaram tão logo eu disse que tinha filhos e morava mais longe (O perfil serve para quê, afinal?).

O quinto era professor como eu, mas muito tarado e muito carente. Não podia passar um dia sem mensagens que já se achava o excluído. Não mandei pastar, mas ele mesmo foi. Não era um cara chato, era inteligente, mas me cansava, não sei dizer. Agradeci o sumiço!

O sexto eu já conhecia de vista, ele não. Interessei-me de cara. Levei dele a melhor cantada da minha vida. Achei que ele era o meu número. Ele disse que havia uma cena no filme o Décimo Terceiro Guerreiro, com Banderas, em que um menino chega de barco ao acampamento nórdico e fica de pé na proa do navio. Ele estava gentilmente se deixando ver, para que definissem se ele era real ou ilusão, em meio à névoa. Depois completou dizendo que se sentia assim, me analisando enquanto conversava com ele. Passei a chama-lo entre as amigas de gelo-seco (viria a ser mesmo, por ironia), pois é assim que se faz névoa artificial. Achei matador aquilo. Metafórico, suave, lindo mesmo. É, todo o meu sofrimento com bons articuladores não foi suficiente. Ele veio me conhecer no domingo, passeamos no calçadão, sentamos no sofá de casa e beijamos já quase na hora dele ir embora. Não sei… Algo ali já estava estranho. Sei que ele foi embora e ficou um gelo, e seco, tal qual seu apelido. De repente a porcaria da névoa virou chuva mesmo e molhou a chapinha e o vestido do baile dos meus devaneios. Ainda não apaguei as mensagens, aquela cantada foi sensacional! Caí feito pata!

Quando o sétimo começou o papo, saquei algo dissonante. Ele era eloquente, articulado, bem humorado e inteligente… Ora bolas… Um cara desses não fica por aí garimpando em aplicativo de relacionamento, porque ele já tem uma fila de espera. Se fosse feio, daria o desconto, mas não era! Desconfiei, mas continuei… Cada vez mais agradável, mais envolvente, mas sem ser… Não sei dizer… Até que mandou à queima roupa: o negócio dele era lazer, prazer, sem comprometer. Tive vontade de mandar à merda, mas a sinceridade dele não me permitiu, gosto de gente direta, franca. Mas eu não estava afim de aventura. Não queria ficar mais destruída do que já estava, era um risco enorme. Eu havia passado por um relacionamento opressor, recheado de críticas e no qual eu não recebia um gesto carinhoso há muitos meses. Eu queria o que não tive: cafuné, conversas longas após o namoro, deitar no colo, falar bobagens, rir de mim, dele, de nós, ver surgir um código interno, só nosso, admirar seu conhecimento, ver que ele admira o meu… Bom eu queria isso tudo num cara, porque eu já não tinha isso, e eis que me aparece o pior tipo masculino: o cafajeste!

Esse tipo é sorrateiro e perigoso, por mais que você tente se desvencilhar, ele te envolve, e “ZÁS!”, já era! Ali jaz uma mulher duplamente ferida emocionalmente. Por fim ele abriu o jogo: Pegue e não se apegue! Entrei na dele! E fui com toda vontade, e sem nenhum amor. Marcamos, nos encontramos e foi surpreendente! Bonito, charmoso, um sotaque mineiro numa voz de derreter até meu coração endurecido, e um sorriso cativante, daqueles que se dá com vontade, e fazem a sua boca rir também. Legal! Fiquei, curti, não me envolvi! Foi uma noite diferente, leve, livre e acima de tudo, divertida!

No dia seguinte conversamos por mensagem, e parecia que eu o conhecia desde sempre. Falar com ele era como falar comigo mesma, só que era um homem. Não houve um assunto que ele entabulasse que eu não quisesse falar. Nós tínhamos muitas afinidades, mas não nos pertencíamos, e isso era divino!

E conforme o combinado, dessa vez não me apaixonei! Não morri de amores, não esperei ligar, não fiz tipo e nem me preocupei em dividir tudo. Com ele só alegrias, curiosidades e diversão (muita). Problemas ficavam fora da nossa caixinha! Gostava de sacaneá-lo com essa história de sentimento… Volta e meia mandava uma mensagem dando a entender algo, mas na verdade não passava de uma piada. E quando eu dizia que gostava dele, era real, curti, gostei, admirei, mas não me apaixonei.

Mas de alguma forma, toda aquela felicidade fazia florescer algo em mim, era um tipo de amor, desses que surgem quando a alegria e a realização imperam. E com o passar do tempo, cada vez mais eu me distanciava de qualquer tipo de sentimento por ele, o que o deixava feliz e à vontade, mas aquele calor crescia ainda, emanava, transbordava em tudo que eu fazia.

Eu dei tanto amor aos homens, que não sobrava muito dele pra mim. Havia tanta preocupação com terceiros, que eu ficava no fim da lista, longe das prioridades.

Foi preciso um cafajeste pra me fazer entender quem eu devia amar. Foi preciso o desapego pra me ensinar a olhar no espelho de modo mais benigno. Foi preciso não buscar ninguém, para encontrar a mim, dentro de mim, e por mim.

Ao cafajeste da minha vida, deixo meus melhores dias como mulher, como menina, como palhaça. Ao cafajeste da minha vida, deixo minha gratidão pelo amor que ele me serviu em abundância: meu amor-próprio!

Ao cafajeste da minha vida, deixo a certeza de que entre todos os homens que tive, ele foi o que mais me quis, porque entre nós não havia acordos ou compromissos, mas ele voltava, e no meu dia de ficar com ele (certamente havia outras sortudas como eu), ele era pleno e gentil comigo. Com ele eu tive cafuné, beijo na testa e muito suor, com ele eu tive palavrão, doçura, só o melhor!

Ao cafajeste da minha vida, deixo o meu respeito, por ter extraído o melhor de mim, apesar de todas as circunstâncias!
O espelho no teto já não me incomoda mais, antes de ir embora, o cafajeste da minha vida me deixou uma caixa cheia, bem cheia mesmo, de autoconfiança!

Separada, superada, sem parada! Apaixonada novamente Dois filhos terríveis e lindos Buscando autoestima e autoconfiança Professora e aprendiz, sempre!