Obrigado, querida...

Faz muito tempo que me perdi de mim?

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Obrigado por ter me deixado partir.
A decisão foi minha, você diria. Não sei… Talvez tenha sido. Mas acho que não teria saído se você não me empurrasse para fora.
Um centímetro por vez. A cada grosseria, a cada descaso. A cada dor de cabeça que você misteriosamente sentia toda vez que meus olhos apitavam meu tesão por você.
Eu sei que a culpa foi minha, não precisa gritar.
Eu sei que também destruí, centímetro por centímetro, a sua vontade de me chamar de volta.
Eu já  não queria ficar. Você já não queria que eu ficasse também.
Obrigado por ter tornado tudo mais fácil. Sei que seus gritos eram, na verdade,  uma tentativa boba de chamar minha atenção.  Mas querida, eu entendi errado. Achei que eles só  provavam que não existia amor em você também.  Ainda bem. Você errou. Eu errei também. Mas já  não tinha amor para guiar nossos atos. Não  existiam motivos para acertar. Não se culpe. Não me culpo.
Vou te confessar uma coisa. Eu não teria ido embora. Eu sei, já  tinha contado. Já  tinha te culpado também. Eu sei…
Mas tem mais… Um dia me olhei no espelho e nada. Procurei pela casa, procurei nos seus olhos, nos cantos dessa vida que construimos juntos, não me encontrei. Faz muito tempo que me perdi de mim?
Bom… Não importa. Não mais…
Por que um dia eu vi uma mulher, querida. E ela exalava liberdade. Ela era linda. Ela era feliz. Como você já foi um dia. E eu a desejei. Desejei tanto que deixei nela o último  resquício de vontade de ficar. E me encontrei no olhar dela. Pequenos fragmentos de quem um dia eu fui. Ela exalava liberdade, querida. Já falei isso? Desculpe.
Mas eu desejei exalar liberdade também. Desejei encontrar outros pedaços de mim  em outros olhos livres.
Desejei voar para longe. Mas fiquei. E fui ficando por tantos e tantos dias… Tantos e tantos meses. Acho que tentei descolar cada pedacinho do meu corpo que deixei em você. Nessa casa. Nessa família. Nós  construímos  tanta coisa juntos…. E destruímos com a mesma maestria.
No dia que saí, fui exausto. Acabaram as minhas forças. Acabaram os centímetros que me mantinham longe da porta.
Finalmente cheguei. Estamos livres. Livres para sermos felizes de novo. Livres para nos acharmos de novo em outros olhos e outras camas.
Você teve o melhor de mim por tanto tempo. O pior também, eu sei.
Nós vamos sofrer. Vamos chorar a solidão e a frustração de enxergar que acabou.
Mas admita, para suas amigas mais íntimas, ou pro carinha que você conheceu noite passada, que você está ótima. Como eu estou.
Tiramos um peso enorme das nossas costas, não foi querida?
Somos livres agora.
A solidão e a liberdade de não precisar voltar para os seus olhos decepcionados, sua dor de cabeça e nossa cama fria, se misturam no meu peito. E no meu cérebro. Como uma droga.
Sinta isso também. Mesmo que meu ciúme machista ou o julgamento injusto da sociedade e da sua família tentem te impedir.
Dance, querida. Voe. Crie asas. Seja feliz.
Eu fui embora.
Obrigado por ter me deixado ir…

 

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*Imagem via Pixabay

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Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.