Onde se aprende a ser dona de casa? Toda mulher tem que ser dona de casa?

Amo ver o amor e o cuidado em cada cantinho, mas não vim com este dom muito desenvolvido e, na verdade, sempre me dediquei tanto aos assuntos do saber, do crescer, do realizar, do prosperar, do prover, do amparar, que desequilibrou o mimo, a estética, a beleza da decoração.

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Eu sou uma mulher moderna. Nasci nos revolucionários finais dos anos 60 e início dos anos 70: a revolução dos costumes com o advento da pílula anticoncepcional; o Festival de Woodstock;  a ida do homem à lua;  lançado o primeiro microprocessador Intel no mundo e o Odyssey 100, primeiro video game. Começa o golpe militar no Chile, liderado por Augusto Pinochet e termina a Guerra do Vietnã. Ernesto Geisel assume a presidência no Brasil;  a China ingressa na ONU; Os Beatles se desfazem;  morre Elvis Presley e a globo lança a série Malu Mulher.

Minha mãe, dona de casa, que parou de trabalhar ao casar e sempre me disse “filha, não dependa nunca de homem”, me protegeu dos serviços domésticos. Eu sempre trabalhei e estudei. Não lavava louça, fazia mercado, arrumava casa, ou organizava o Natal ou algum aniversário. Minha casa era um bom quarto do AirBnb. Minha mãe cuidava de tudo. Minha roupa era magicamente lavada e passada. Minha comida surgia na mesa. E eu me preocupava com minha carreira e meus estudos, estudava Psicologia e militava nas causas dos desfavorecidos, grupo jovem e etc. Fiz e aconteci na minha vida acadêmica e profissional.

Aos 23 anos me casei. Mais para sair de casa e não ter de me submeter às ordens de meu pai machista (amoroso, mas machista). Assumi uma casa, um marido, enquanto trabalhava em horário integral e concluía a faculdade. Pensa na incompetência total de gerir uma casa?! Como organizar uma rotina, abastecer a casa, organizar a vida financeira e que tudo funcione a contento? Ainda bem, que meu primeiro marido era um moço “prendado”, que ajudava a mãe em casa. Sabia cozinhar, ir ao açougue e à feira. Ia me ensinando com paciência. Tive que lidar com larvas no lixo e em descobrir como se cozinha um repolho, bem como ficar estarrecida diante de uma frigideira teflon que requer óleo para fritar bife, quando eu pensava que antiaderente era igual a nada de óleo. Esfolava o dedo para lavar roupa e cortava a mão descascando batata….

Nunca gostei e nunca aprendi muito bem a cuidar de casa. Não tive exemplo, minha mãe não era muito jeitosa. Tinha um cuidado de prover mas não a apreciação da beleza, até porque em tempos de muita escassez, nem havia muito espaço para os pequenos mimos. A luta era árdua! Três filhos, um marido que era o provedor, e todo o serviço doméstico a ser feito. A lida era dura.

O fato é que eu nunca tive uma casa arrumada, cuidada, decoradinha em cada cantinho… amo casa bonita, cheirosa e organizada! Amo ver o amor e o cuidado em cada cantinho, mas não vim com este dom muito desenvolvido e, na verdade, sempre me dediquei tanto aos assuntos do saber, do crescer, do realizar, do prosperar, do prover, do amparar, que desequilibrou o mimo, a estética, a beleza da decoração.

Já cheguei em lojas de decoração e comprei a árvore de natal já decorada da vitrine: “Embrulha que eu levo”, dizia aos vendedores. Nenhuma paciência ou talento para montar a árvore de Natal, imaginar os adereços, suas cores e combinações. Me sinto cega e maneta diante destes desafios. Habilidade pouca. Arrumar a mesa, decorar o lavabo, escolher quadros, tapetes e arranjos??? Nunca! Nenhum talento! As tintas das paredes, as louças… Até escolher minhas bijuterias é trabalho duro pra mim. Faço três artigos no tempo de selecionar um simples colar em meio a loja de bijoux. Ainda bem que tenho amigas chiques e habilidosas na apreciação da beleza, além de uma filha muito “mocinha” e vaidosa.  No geral, escolho as roupas da vitrine e terceirizo a ceia, encomendando na padaria. Sou do tipo prática. Se posso, faço supermercado on line e deixo aos profissionais fazerem seu trabalho: a manicure pode sugerir meu esmalta, ela sabe o que tá na moda. Perfumes eu compro conforme sinto o cheiro nas amigas, pergunto o nome e compro na internet. Se não gostar, já sei pra quem dar no aniversário.

Mas, ultimamente, tenho sentido falta de cuidar mais da casa, dos cantinhos, dos detalhes e mimos. Mas, fica a questão: onde aprendemos isso? Tenho consumido com afinco Pinterest, youtube, blogs e afins em busca de dicas e ideias…. como se maquiar? Pra que serve um curvex? E compor um look? e decorar uma mesa de jantar? Organizar uma recepção? Montar um cardápio? Combinar o vinho? Caramba, já sou dona de casa há mais de 25 anos! Já tive empregada de todo o dia. Faxineira, cozinheira, diarista… já fiquei sem ninguém para ajudar. Já casei, descasei, casei de novo, criei os filhos e ainda não sei me virar nestas tarefas… Para mim, todas as casas são bem cuidadas, menos a minha.

A última questão que fica é: se nossos filhos não sabem, não aprendem e não querem mais este trabalho ou papel de dona de casa; se nós, mães, não somos mais habilitadas nestas artes  e se os maridos e homens ainda não se empoderaram e assumiram totalmente estas funções, antes tidas como exclusivamente femininas, como faremos? Eu só queria uma dona de casa como as dos anos 50. Onde encontro, como aprendo?

Mãe, esposa, boadrasta, mulher e FELIZ! Foi lagarta, hoje é borboleta. Atua como Consultora em Educação Corporativa há 25 anos. Professora, palestrante e instrutora. Mestranda em Gestão do Conhecimento - ESPANHA; Pós Graduada em Gestão de Pessoas - PUC/RJ, terapeuta Holística - UNIPAZ/SP; Pós Graduação em Psicologia Positiva - IPOG/SP Psicóloga, Coach e Mentora.