Orgia de cores

32 - 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens - Capítulo 6

tattoo-702133

 

É uma orgia de cores a pele dele. Não a de Deco, o tatuador a minha frente, ou melhor, não apenas a do tatuador a minha frente, mas a pele de um homem com quem estou saindo – embora essa orgia não seja a característica mais marcante dele. Você consegue imaginar um homem com os braços cobertos de tatuagens a partir dos punhos e esse não ser seu traço mais marcante? O que mais ele poderia ter? Um olho no meio da testa? Uma cabeça de touro? Pés de bode? Não: nada de ciclopes, minotauros ou demônios. A coisa é mais interessante: 57 cm de braço. Para quem não sabe o que isso significa (como eu não sabia até conhecer Diogo), imagine o tamanho do braço do Schwarzenegger quando ele estava no auge da forma física. Imaginou? É maior.

Eu, uma mulher normal, mais para cheinha do que para magra, jamais imaginei que um cara megabombado pudesse se sentir atraído por mim. Supunha – e disse isso ao Diogo quando nos encontramos num café – que eles só se interessassem por mulheres saradas.

– Isso depende do gosto de cada um. Eu gosto de pegar em mulher, de pegar em textura feminina.

Enquanto dizia isso, Diogo limpava uns grãos de açúcar que haviam caído nas minhas coxas (eu tenho a mania de brincar com envelopes de açúcar até que eles se rasguem). Na verdade, ele estava passando as mãos descaradamente no que eu costumava chamar de gordura, banha, flacidez e agora, com orgulho, chamo de textura feminina!

Corri o risco de levar uma bofetada, mas perguntei:

– Você toma bomba?

Diogo nem se abalou.

– Ninguém fica desse tamanho sem tomar bomba.

Ah, eu adoro gente que confessa vícios, torpezas e práticas ilícitas sem se ruborizar.

– Eu acho que está perfeito. Dá uma olhada.

Era Deco, o tatuador, cortando meus devaneios para avisar que o decalque nas minhas costas estava pronto: era a primeira das 32 tatuagens que eu iria fazer. Se isso é um fechamento de ciclo, se os 32 anteriores não vingaram – e agora serão devidamente expulsos de dentro de mim – talvez Diogo se torne o definitivo, talvez ele não precise ser regurgitado para a superfície da pele nem esquecido a fórceps, talvez ele não se torne mais um arrependimento. Talvez.

Leia o capítulo 5

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net