Paixão não correspondida

Após muitos ais e palpitações, finalmente, ela se declarou. Cartas na mesa, nenhum coringa: Maria ama Paulinho que não ama Maria e ponto final. Não tem “mas”, não tem “e se”, não tem “quem sabe”: ele não a ama, tampouco a deseja, caso encerrado.

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Photo by Nick Fewings on Unsplash

Acabei de desligar o telefone. Estou pasma: a ligação foi, no mínimo, curiosa. Uma conhecida – e sabe-se lá como ela conseguiu meu número – depois do “oi, como vai, tudo bem, que ótimo”, disparou:

– Você sabe se a Adriana está namorando o Paulinho? Por favor, Stella, não me esconda nada!

Como assim, “não me esconda nada”? A Adriana é minha amiga, bem como o Paulinho – e essa moça, a quem chamarei de Maria, sabe disso. Na verdade, eu também sei algumas coisas sobre ela.

Há oito anos Maria conheceu Paulinho, se sentiu toda tremer, toda perturbar, encasquetou que ele era o homem da sua vida e que aquele amor seria imortal. Paulinho jamais olhou para Maria com lubricidade ou deu a ela qualquer esperança romântica, sou testemunha disso. Gentil por natureza, ele costuma tratar a todos com educação e carinho. Raspas e restos não me interessam, mas pelo visto Maria briga, mata e morre por eles.

Após muitos ais e palpitações, finalmente, ela se declarou. Cartas na mesa, nenhum coringa: Maria ama Paulinho que não ama Maria e ponto final. Não tem “mas”, não tem “e se”, não tem “quem sabe”: ele não a ama, tampouco a deseja, caso encerrado.

No entanto, Maria continuou – e continua – obcecada por Paulinho a ponto de paralisar a própria vida se mantendo fiel a um romance que nunca existiu; a ponto de amaldiçoar com achincalhes, lágrimas e macumbas todo e qualquer relacionamento que Paulinho tenta engatar, a ponto até de ligar para mim com ares de esposa traída: não me esconda nada! Maria não sabe (não quer saber) que ela não é importante a ponto de motivar um segredo. Paulinho não está namorando Adriana: existe um troço chamado amizade que às vezes acontece entre homens e mulheres.

Fico boquiaberta ao ver não apenas Maria, mas tantas outras pessoas estacionadas numa paixão não correspondida. Não adianta assobiar e fingir que esse assunto não lhe diz respeito: isso já aconteceu comigo, com você e com o resto dos humanoides. Então, o que faz com que isso ocorra? Mil possibilidades. Uma delas, porém, me assalta agora. Faça o teste e veja se te parece plausível: lembre-se de algum momento-Maria seu e perceba se o gajo em questão possuía qualidades que você gostaria de ter. Simples assim: eu quero ser daquele jeito, eu quero ter o que ele tem, eu me apaixono tresloucadamente. Não pelo cara, é claro, a quem mal se conhece ainda, mas pelo que ele representa.

Talvez se dar conta desse processo ajude a dissipar a paixão tresloucada, talvez não. Eu só sei de uma coisa: Maria diz que seu amor é verdadeiro, eterno, puro. Pois se é assim, eu quero mais é me refestelar num amor bem falso a vida inteira!

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net