Para quem busca no outro a sua metade: “Não seria melhor alguém que te transborde?”

O problema é que somos todos vítimas desse roteiro mal-assombrado que nos diz que a única maneira de amar é formar um par e encontrar alguém para nos tirar dessa horrenda situação de solidão. Essa é uma das maiores mentiras que já foram inventadas, e acabou por aprisionar a todos nós.

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Eu sei, você já ouviu dizer que essa coisa de “metade da laranja” é uma grande armadilha.

Estou certa de que já ouviu, ou até já falou, que todos temos mesmo é que ser inteiros.

Mas será que se dá conta do que isso realmente quer dizer?

Quer saber? … Eu já acreditei que era metade um dia. Sim, tão humana quanto qualquer outra pessoa neste planeta, já saí por aí buscando loucamente a parte que sentia faltar em mim, então sei, na pele, o que tanta gente sente por aí. Já senti aquela ansiedade que aperta o peito, que desperta dentro da gente uma angústia que se parece com uma mão apertando nosso coração, porque é disso que se trata a busca de metades. Dessa sensação de que, sem o outro, somos incompletos, de que sem o outro, “falta algo”. Do medo de nunca encontrar ninguém.

E o pior. Quando finalmente encontramos e achamos que nossos problemas estão resolvidos, mal relaxamos e já somos assombrados pelo medo de perder a tão sonhada metade, e vem os ciúmes, a insegurança, aquela sensação escondida lá dentro de nós que diz que em algum momento algo dará errado.

Vocês percebem?

Enquanto buscamos “a outra metade” não há escapatória para o sofrimento, porque a premissa é que sem aquilo não há possibilidade de vivermos o amor. E todos queremos tanto viver o amor…

Entendam. Essa busca é a mais bela que pode existir.

Estamos todos em busca de amar.

Não existe desejo mais sublime.

O problema é que somos todos vítimas desse roteiro mal-assombrado que nos diz que a única maneira de amar é formar um par e encontrar alguém para nos tirar dessa horrenda situação de solidão. Essa é uma das maiores mentiras que já foram inventadas, e acabou por aprisionar a todos nós.

Ouçam, o amor não é um “sentimento”. Tampouco é um “produto” que precisamos encontrar. Não é sequer algo que esteja fora de nós.

O amor é a mais elevada vibração do seu próprio Ser. Dentro de cada um de nós existe amor em abundância, uma fonte inesgotável que jorra sem nunca cessar. Como um lugar sagrado e intocável no meio da floresta, o amor está lá, dentro de nós, esperando que mergulhemos em suas doces águas, capazes de curar nossas feridas e nos suprir, em abundância, do que quer que estejamos sentindo falta. A questão é que estamos tão empenhados em buscar nossa metade, que nunca mergulhamos na nossa inteireza. Não visitamos esse lugar sagrado onde o amor mora, dentro de nós.

Eu sei, para quem nunca fez um mergulho desses, estas palavras podem parecer sem sentido.

Por isso o amor verdadeiro ainda não é para todos.

Embora exista em abundância, requer a ousadia e a coragem de se tentar um novo caminho. Requer equilíbrio. Um passo atrás. Requer que você pare com essa caçada insana que nunca irá trazer o que você busca. Requer que você pare de se esforçar.

Lembre-se de que está tudo bem. Comece simplesmente amando a si mesmo.

Às vezes somos teimosos, então o amor só chega mais tarde, quando, com os pés doloridos e a pele ferida de tantas quedas, algo em nós desiste de procurar. Nos aquietamos e, finalmente, decidimos descobrir quem de fato somos.

É nesse momento que encontramos, no centro do nosso Ser, nesse templo que muitos chamam de coração, a taça sagrada. Nós nunca a tínhamos visto antes, e sua visão nos deixa simplesmente extasiados. A taça em nosso peito é tão bela que nos esquecemos da ansiedade, da angústia, da solidão, da busca… A beleza daquela taça nos preenche por inteiro, e lá, de dentro de nós, uma luz começa a jorrar. No início mais sutilmente, mas logo começa a escorrer por cada um de nossos poros e tudo em nós começa a brilhar. É lindo esse momento, quando tudo se dissolve no brilho do amor que nos habita.

Acredite… É nesse momento pleno, em que o amor transborda de você, que um verdadeiro amor pode se manifestar também no mundo externo.

Isso é o que significa “ser inteiro”.

Patricia Gebrim já foi dentista. Mudou de rumo, formou-se em psicologia, e em sua caminhada profissional sempre buscou o elo de união entre a psicologia e a espiritualidade. Atende em seu consultório como psicoterapeuta. É também escritora, com diversos livros editados. Dedica-se a escrever com o intuito de favorecer a elevação da consciência de seus leitores, questionando os caminhos condicionados e buscando sempre novos ângulos para a compreensão da vida. Acredita que o pensamento livre e o amor são as forças que podem impulsionar todos nós a uma nova forma de vivermos e nos relacionarmos.