Pedale a transformação

Pode ser para espairecer, perder umas calorias ou simplesmente para sentir o vento no rosto.

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Pode ser para espairecer, perder umas calorias ou simplesmente para sentir o vento no rosto. Se você já pedalou uma vez sabe que a bicicleta pode trazer momentos de lazer e satisfação, uma bike é diversão garantida.

Mas o que você talvez não tenha pensado é que a bicicleta pode ser ferramenta para uma verdadeira transformação na sua vida!

Como assim? Por um tempo, e há muito pouco tempo, se fosse para ir ao trabalho eu simplesmente não levantava da cama. Por alguns meses nada da minha vida “normal”, da rotina de sempre, absolutamente nada do que eu fazia me tiraria da cama. Ficaria lá, entocada nas cobertas. O que me tirou da cama todos os dias, por meses, foi pedalar.

E essa atividade foi aos poucos me transformando. Foi pedalando que eu – e muitas outras mulheres – descobriram força onde antes não viam: nelas mesmas. São inúmeros os relatos de mulheres que vivem verdadeiras revoluções na vida por meio da bicicleta. Isso não é de hoje, claro, mas cada vez mais vemos mulheres compartilhando essas histórias e experiências.

Por um ano eu levantava para encontrar meu grupo de pedal, um recém formado grupo de mulheres que queriam começar a andar de bike na estrada: o Pedal das Mina. Três vezes por semana nos encontrávamos de manhã para pedalar na Ciclovia da Marginal Pinheiros, em São Paulo. Sair da cama fazia sentido, encontrar as amigas, encarar o desafio. E a empolgação no fim do treino compensava tudo!

Depois de alguns meses de treino estávamos prontas: pedalar nas estradas todos os domingos!

Estrada é assustador: você precisa estar alerta, você precisa de força, você precisa respirar e checar se todo mundo do grupo está acompanhando, se todos no grupo estão seguros, se está tudo indo bem. Estrada é libertador: você vai de bike a lugares onde nunca havia imaginado, você descobre caminhos novos, você descobre que pode pedalar 60, 70, 90, 120km. Em uma manhã. Você encara rotas mais duras, queima as pernas, se gasta!! Você desce ladeiras com o vento na cara, você dá risada no café da padoca, comentando com as amigas quem foi melhor naquela subida loooooonga! Quem brilhou muito nessa semana pode ficar para trás na semana que vem, nunca se sabe!

Num momento de transformação que é uma separação, pedalar vira um micro-cosmos da vida. Sozinha ou em grupo, ao pedalar você sempre vai encontrar você mesma. E vai encarar desafios, descobrir a força das pernas, visualizar a dor. Está difícil pedalar hoje, está muito difícil, não vou conseguir, minha perna dói. Tudo dói.

Não é simples falar de dor pois ela é uma experiência subjetiva e da qual fugimos a todo custo. Mas é algo que você vai vivenciar se escolheu fazer um esporte, especialmente os de resistência. E podemos aprender a lidar com essa dor, identificar seu limite e seus tipos para, idealmente, empurrar esse limite cada vez mais. Quanto mais longe você empurra a linha da dor, mais longe você conseguirá ir.

E se você quiser, esse exercício pode ser transferido para outros tipos de dores, que a gente encara na vida fora da bicicleta.

Porque se a dor na bike é uma escolha, na vida certamente não é. Mas se ali na bike eu consigo encará-la de frente, porque não minhas outras dores? E que dor é essa? Onde dói? Será que dói mesmo? Calma, é só um desconforto, já passa, passou. Ufa!
Entre um pedal e outro, força e dor foram virando coisas corriqueiras de pensar e encarar. Quanto mais forte minha perna ficava, mais forte eu me via. Quanto mais longe eu ia na estrada com as amigas, mais eu arriscava na vida. E nada continuou igual.

Então vai lá, pedala! (Leia mais). A transformação pode estar logo ali no próximo pedal!

*Photo via Visualhunt.com

Adriana Vojvodic é advogada e ciclista. Começou a pedalar no final de 2014 com o Pedal das Minas. É criadora do Canela (www.canela.cc) um site de ciclismo para mulheres, com dicas de pedal e treino para quem quer começar a pedalar.