Planeta dos esquecidos, por Stella Florence

Por que você não pode manter um contato amistoso com seu ex, considerando que o rompimento não se deu por graves estragos? Por que não pode trocar algumas palavras gentis por ano, que seja no aniversário ou no Natal?

Hoje me dei conta de que vivo no planeta dos esquecidos. Estou olhando através da janela do meu apartamento e, ao mesmo tempo, num limpíssimo espelho que mostra exatamente quem eu sou: eu sou nada, eu sou ninguém.
Não consigo compreender como tantas pessoas dividem a vida com você por um tempo e depois desaparecem completamente como se você nunca tivesse existido. Como elas conseguem se descartar das lembranças desse modo? Como conseguem encaixotar-se em novos compartimentos sem manter limpos os aposentos que abandonaram? O passado não precisa de clausura e mofo para continuar a ser passado. Um homem (ou mulher) que não faz parte mais do seu cotidiano e está inacessível aos afetos românticos que entre vocês já morreram pode muito bem continuar a ser uma pessoa querida.
Por que você não pode manter um contato amistoso com seu ex, considerando que o rompimento não se deu por graves estragos? Por que não pode trocar algumas palavras gentis por ano, que seja no aniversário ou no Natal? Por que não pode tirar uma dúvida sobre a área profissional dele? Por que não pode compartilhar a reflexão sobre uma peça ou um filme? Por que nos encarceram num sarcófago quando a relação termina? E eu não me refiro, que fique claro, a recuperar o amor de casal, eu estou falando de gentileza, de consideração, de amizade.
Quando ele esquece quem fez parte de sua vida, ele cai na vala comum. Eis aí, senhoras e senhores, o exato instante em que alguém especial se torna apenas mais um, se torna igual aos outros.
Então eu sou assim, uma estranha no ninho, porque eu não me esqueço. Minha alma segue cheia de talhos, como um mapa, repleto de rios, cordilheiras, cavernas, vales sulcados por arados cruéis, mas sem recusar uma palavra amiga a quem conviveu comigo (a não ser a criaturas perigosas e perversas das quais quero distância).
É isso. Não importa quão significativas tenham sido suas relações, não importa o quanto você tenha se doado, como mulher e parceira, não importa quão rica tenha sido a troca intelectual entre vocês, não importa a amizade que você supôs existir, você vai desaparecer completamente porque vivemos num absurdo e monstruoso planeta dos esquecidos. Mas eu insisto: quem apaga o seu passado, destrói as pontes do futuro.

 

Leia O Diabo que te Carregue no Exnap. 

http://www.exnap.com.br/o-diabo-que-te-carregue-o-livro/

 

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no Blog da autora, Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização.

Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.