Por que a camisinha não sai da gaveta?

Todas as mulheres brasileiras precisam ter estrutura, perspectiva, carinho a fim de não rastejarem por migalhas de amor, a fim de que possam, sem medo, sem desamparo, levantar a cabeça e dizer a seus homens: “desse jeito, não.”

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Photo by Rowan Chestnut on Unsplash

Quando minha filha nasceu, eu me senti conectada a todas as mães do mundo. Embora eu não tivesse passado pela experiência de não conseguir alimentar ou agasalhar um filho (pelo menos não nesta encarnação) eu era capaz de imaginar a dor daquelas mães. A angústia que isso gerou em mim e a culpa por me sentir privilegiada num mundo de miséria, só poderiam ser aplacadas de uma forma: trabalho voluntário. Portanto, as parcas três horas por semana que dedico à entrega de enxovais a quem deles precisa com urgência é mais egoísmo que bondade.

Não é possível ignorar que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe. Porém há pessoas que estão famintas a ponto de não terem forças para esperar o peixe morder a isca. Um bebê que nasce hoje, não pode esperar que sua mãe receba qualificação profissional, arranje um emprego e lhe compre um cobertor: ele precisa se aquecer agora. Dar o peixe e ensinar a pescar são ações casadas e igualmente meritórias.

As gestantes das mais variadas idades, religiões e estruturas familiares com quem conversei ao longo desses anos tinham, quase todas, informação suficiente para se prevenir de doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez indesejada: camisinhas são distribuídas nos postos de saúde (ainda não em quantidade suficiente), cursos gratuitos são oferecidos por ONGs, a televisão – embora este não seja seu papel – educa e esclarece sobre o assunto.

Mas então o que acontece para que a gravidez não desejada, a disseminação de várias doenças continue a acontecer com tamanha frequência? A resposta é simples: a ponte entre a informação e a prática é frágil demais. Seu nome é autoestima.

Meninas e mulheres, não só das classes D e E, deixam de se proteger simplesmente porque precisam de amor – e precisam tanto, e precisam com tamanho desespero, que se jogam sôfregas sobre as migalhas que os homens oferecem a elas. Juízas, empresárias, executivas, também sabem o que é isso: deixar de se proteger, não por falta de informação, não por imposição de suas religiões, mas por baixa autoestima.

Todas as mulheres brasileiras precisam ter estrutura, perspectiva, carinho a fim de não rastejarem por migalhas de amor, a fim de que possam, sem medo, sem desamparo, levantar a cabeça e dizer a seus homens: “desse jeito, não.”  Onde houver uma mulher sem autoestima, pode acreditar, a camisinha continuará na gaveta.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net