Prazer suficiente

A necessidade de prazer é algo que se impõe no nosso dia a dia – e, em períodos de estresse, essa necessidade dobra.

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Uma amiga minha, que está com o pai muito doente há meses, arrumou as malas, contratou duas enfermeiras e disse, “Hasta la vista, baby!” Ao viajar com o namorado para o Caribe, toda a família, amigos, conhecidos e desconhecidos iniciaram uma cruzada contra o Anti-Cristo-Renata: uma criatura vil, insensível e cruel que não se importou em abandonar o próprio pai à beira da morte para se banhar num mar azul-turquesa. “Como ela pode fazer isso?” é o mantra do momento.  Ela pode, sim. Ela não só pode como deve.

Prazer é o nosso oxigênio. Pessoas bastante elevadas espiritualmente conseguem extrair do bem que fazem aos outros todo o prazer de que necessitam: um dia chegaremos lá. Mas o resto da humanidade ainda precisa de prazeres, digamos, menos diáfanos para se manter em pé.

Se você já cuidou de um doente, sobretudo pai ou mãe, sabe que chega um determinado momento em que você simplesmente precisa de, ao menos, um pouco de prazer. Não é uma questão leviana: não receber uma transfusão de prazer faz com que você se torne mais intratável (ou mais enfermiço) que o doente. Caso não se dê prazer, essa falta será suprida de uma forma ou de outra: você irá comer demais, fumar demais, beber demais, comprar demais, limpar demais, falar demais, encher o saco dos outros demais.

A necessidade de prazer é algo que se impõe no nosso dia a dia – e, em períodos de estresse, essa necessidade dobra. Minha amiga Renata pegou seu instrumento de satisfação garantida – o namorado – e embarcou num cruzeiro para o Caribe a fim de potencializar sua quota de prazer. Ao voltar refeita, estará preparada para encarar, com todo carinho e paciência, mais alguns meses à beira do leito paterno.  Curioso que nenhuma das pessoas que está achincalhando Renata se ofereceu para ficar meia hora que fosse com o doente. Quanta compaixão!

Mas será que outras formas de prazer não podem nos saciar? Meditar pode dar prazer, religião pode dar prazer, brincar com os filhos, fazer um trabalho voluntário, praticar um esporte, pegar um cinema ou um teatro pode dar prazer – mas é suficiente para encher o tanque de alguém que vem se doando no limite da própria saúde física e mental? É suficiente para alguém que carrega o peso de decisões políticas que afetarão milhões? É suficiente para uma mãe que ano após ano vela pelo filho com necessidades especiais? Com toda sinceridade, eu não sei. Por via das dúvidas, melhor não julgar a forma como os outros conseguem obter prazer. Prazer suficiente.

 

*Texto retirado do livro de crônicas  – “Os Indecentes – crônicas sobre amor e sexo”

por Stella Florence

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net