Puxando o freio

Kundalini é o nome do chakra pelo qual as energias sexuais deveriam fluir. Deveriam, mas não fluem: não sei o seu, mas a minha kundalini está estourando com energias acumuladas de todo tipo e tamanho.

freio
Photo by Annie Spratt on Unsplash

Kundalini é o nome do chakra pelo qual as energias sexuais deveriam fluir. Deveriam, mas não fluem: não sei o seu, mas a minha kundalini está estourando com energias acumuladas de todo tipo e tamanho.

O que mais dói, porém, disse uma amiga, não é a ausência de um bom sexo (aquele com amor: raro, raro), mas represar a inundação causada por um bom sexo, ter de puxar o freio de mão em alta velocidade, ou, em português claro, lidar com a frustração de não ter uma segunda noite com o homem que te deu tudo o que você queria na cama.

Esse tudo varia ao infinito – o que é pra você? Encaixe, orgasmo, olho no olho, carinho, encantamento, beleza, pele, cheiro, amor. Você acha que é impossível rolar amor numa primeira transa? Hum… Me parece que não existem impossibilidades quando duas pessoas se encontram: do melhor ao pior, tudo pode acontecer. Dizem que a paixão pode ser imediata, mas que o amor só vem com tempo: mas quem faz essas regras? E se a inundação da kundalini vier com tudo ao mesmo tempo? Eu não duvido. Em matéria de gente, eu não duvido de nada.

Há algumas semanas minha amiga teve uma daquelas noites em que vieram à tona todas as energias represadas, todas as águas femininas que se escondem Deus sabe onde, todos os orgasmos que deveriam ter sido e não foram, todos os olhares que perfuram a alma, todo o suor que cola dois corpos, todo o fluxo intenso da kundalini. E o responsável por essa noite não estava no Tibet imantando o mundo com vibrações de longo alcance, não: era um rapaz com nome, sobrenome, endereço, profissão, perfil no Facebook, cachorro.

Então ela acordou no dia seguinte com todas as tensões do corpo soltas, todos os calos da alma lisos, todas as lutas rotineiras subitamente minúsculas, ela acordou rodando a um bilhão de quilômetros por hora, na velocidade da luz ela se tornou uma larga e fluida faixa branca. Por isso minha amiga quis vê-lo de novo e de novo e de novo, mas… Ele pareceu distante no WhatsApp, depois não respondeu a suas mensagens, algo desencaixou.

Então ela, a mais de um bilhão de quilômetros por hora, teve de reduzir a marcha – e reduzir a essa velocidade significa praticamente puxar o freio de mão. Sim, ela deu um cavalo de pau. E está agora aqui na minha frente se perguntando: “Se foi tão bom pra mim, como pode não ter sido bom para ele também?”

Não sei, minha cara. Mas sei que puxar o freio de mão é o que mais a gente faz na vida. Bem-vinda ao clube.
*Texto retirado do livro de crônicas  – “Os Indecentes – crônicas sobre amor e sexo”

por Stella Florence

 

 

Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.