Quanto tempo vocês ficaram juntos?

A dor que a gente sente quando é abandonada não tem o tamanho do tempo que durou o relacionamento.

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É a primeira vez que você vai ao salão de beleza depois dele ter te abandonado. Sua autoestima não anda lá essas coisas, é claro, e cuidar da aparência certamente fará você se sentir um pouco melhor.

Nos primeiros dez minutos, você pensa numa lista das coisas que detesta em salões de beleza. Primeiro, o barulho: sempre tem uma televisão ligada ou um rádio, competindo com secadores e cacarejos humanoides. O cheiro também te incomoda: cremes, esmaltes, ceras quentes, chapinhas, fumaças de todos os tipos. Porém, o que mais te aborrece é a obrigatoriedade de interagir: sorria, cumprimente, converse. Não, você não quer conversar. Não quer ouvir nada sobre paqueras, produtos, doenças, artistas, fofocas. Você quer apenas chorar.

– Quanto tempo vocês ficaram juntos?

Seus olhos estão obviamente inchados e a partir deles supuseram um resfriado. Você negou que estivesse gripada e meio sem querer a cabeleireira já sabia – e com ela o salão inteiro – que você havia levado um retumbante pontapé nos fundilhos.

Foi então que uma moça com aquele chapéu de papa com o qual se faz hidratação, uma moça que nem te conhece, pergunta quanto tempo vocês haviam ficado juntos. Por que ela não disse simplesmente “sinto muito” e calou a boca? Ou apenas manteve sua boca calada, o que já seria uma caridade? Todo seu rosto e sua postura corporal gritavam que você não queria falar sobre o assunto. Você se mantém em silêncio, mas a papisa repete a pergunta:

– Ei, quanto tempo vocês ficaram juntos?

Mulheres e abutres adoram revirar vísceras abandonadas como as suas. Você respira fundo e responde:

– Sabe, eu sou contra essa pergunta.

– Contra? Como assim?

A papisa ajeitou a orelha esquerda dentro do chapéu, olhando para você a espera de uma explicação.

Um secador foi desligado, depois outro. Manicures, cabeleireiros e suas clientes sentiram a tensão no ar e esticaram os pescoços. Você aumentou o tom de voz, mantendo, porém uma estranha suavidade.

– A dor que a gente sente quando é abandonada não tem o tamanho do tempo que durou o relacionamento. A dor tem o tamanho da esperança acumulada numa vida inteira de busca. Se você já sofreu bastante, já se decepcionou muito, a esperança de que finalmente algo bom, algo verdadeiro, algo definitivo acontecesse foi crescendo. E no meio dessa ansiedade apareceu um homem especial. E se esse homem tão esperado for embora, vai fazer diferença o tempo que ele ficou? Vai doer menos? E se ele ficou o tempo de um beijo, mas um beijo que tenha soterrado todos os outros? E se ele ficou só uma noite, mas uma noite que tenha sepultado todas as outras? Isso não seria o suficiente para ele se tornar o homem mais importante de todos? O tempo rígido do relógio não conta no amor. É por isso que eu acredito que a dor de um rompimento tem o tamanho da nossa esperança, da nossa frustração, da nossa procura. Quanto tempo durou não faz diferença alguma, se, dentro da gente, o amor ainda dura.

Silêncio pós bombardeio nuclear no salão de beleza. E tudo que você quer, ainda, é apenas chorar.

 

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Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net