Quem vive de migalha é pomba!

Quando eu me via nessa posição, de não receber nada além de migalhas e isso ter se transformado em tudo o que eu tinha, por mais que doesse eu preferia olhar no olho do demônio e fazer a mais horrenda das perguntas: “Afinal, você quer ou não ficar comigo pra valer?”

pomba
Photo by Luis Flores on Unsplash

 

Ontem, ao sair de um prédio cuja calçada está sendo reformada, eu vi uma cena pavorosa: entre argamassa e cascalhos, três pombas famintas atacavam um montinho de terra. Não havia minhocas, milho, pão ou pequenas moscas ali, eu cheguei perto para olhar: as pombas estavam comendo terra!

Por que essa visão foi pavorosa para mim? Porque eu costumo dizer que, em matéria de relacionamentos amorosos, quem vive de migalha é pomba. Essa frase ajuda a manter o amor próprio, a enxergar nosso valor e a não aceitar o naco de miolo de pão que um homem deseje nos oferecer.

Pois é, mas as pombas já estão comendo terra! Será que o mundo romântico se tornou tão árido que as migalhas de outrora se transformaram no nosso ouro? Se um homem que te interessa não te elogia, não faz um agrado, sequer aparece, mas te manda uma mensagem toda semana para manter o contato ativo (leia-se em português claro: poder sair com você quando as opções a, b e c da agenda dele tiverem roído a corda), você deve fechar os olhos, engolir em seco e fingir que isso te sacia? Ou se ele aparece uma vez por mês para uma rapidinha (mesmo que não seja tão rapidinha assim), você deve fingir que o cheiro de homem que ele deixa nos seus lençóis – e que dura algumas horas, não mais – é suficiente?

Há uma canção do U2, “One“, cuja letra diz “você não me deu nada e agora isso é tudo o que tenho”. Quando eu me via nessa posição, de não receber nada além de migalhas e isso ter se transformado em tudo o que eu tinha, por mais que doesse (e doía um rio fedido de dor) eu preferia olhar no olho do demônio e fazer a mais horrenda das perguntas: “Afinal, você quer ou não ficar comigo pra valer?”

Não é fácil, não é agradável, mas é útil. Há homens que não querem ser amados, que não se interessam por você o bastante, que são gays, que têm medo (sim, senhora: isso não é lenda urbana) ou que já namoram – e se constrangem em admitir isso porque, nesse caso, posariam de completos canalhas.

Algumas pombas podem até comer terra para sobreviver, mas eu insisto no meu mantra: quem vive de migalha é pomba e, definitivamente, nós, mulheres, não gorjeamos.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net