Quem você era antes de ser mãe?

Faça esse exercício, pense na sua vida antes da maternidade. Quais eram seus desejos, seus sonhos, suas vontades, seus hobbies? Que livros gostava de ler, que filmes gostava de assistir, que programas gostava de fazer?

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Toda mulher, ao tornar-se mãe, transforma-se. A vida muda, e com ela mudamos desde o nosso jeito de pensar, até nosso modo de agir, de ser, de amar. A maternidade nos transforma, e não tenho dúvidas de que as  mudanças são, na maioria das vezes,  para  melhor. Mesmo com todas as dificuldades dos primeiros meses, e com a inconstância do puerpério, a vida ganha novas cores. E em pouco tempo, você nem lembra mais como viveu tanto tempo longe desse colorido fascinante.

Embora para muitas mães a maternidade seja uma experiência solitária, para mim aconteceu exatamente o inverso. Eu, que sempre fui uma pessoa mais reservada e de poucos amigos, vi o mundo se abrir depois que tive filhos. Eu gosto muito de participar de grupos de mães, e costumo ir a encontros e rodas de conversa, piqueniques com filhos, happy hours sem filhos, sou arroz de festa e figurinha carimbada em eventos relacionados a maternidade. As conversas entre mães são às vezes tranquilas, às vezes mais calorosas, e envolvem desde assuntos mais rotineiros como o terrible two, a ansiedade de separação, a rotina do sono e o lanche da escola, como também os assuntos mais polêmicos, como parto e amamentação. E na hora da polêmica é difícil conter os ânimos, especialmente das extremistas de plantão, e o que acaba prevalecendo nessa hora, é o velho discurso do Tribunal da Inquisição Materno.

Não há como negar que o mundo adora palpitar acerca da gravidez e criação dos filhos alheios, mas sendo sincera, se você tem dificuldades em entender que a fala do outro é do outro, a maternidade pode se tornar para você bem mais dolorosa que o necessário. A culpa, que já é um sentimento inerente a qualquer mãe, pode adquirir proporções difíceis de suportar, quando um dedo apontado para você deixa de ser somente um dedo apontado para você. E não se iluda dizendo que as pessoas são más e que deveriam cuidar da própria vida. Desde que o mundo é mundo, o ser humano se interessa em cuidar da vida alheia. As revistas de fofocas, os reality shows e as redes sociais não me deixam mentir. Somente você pode dar ou tirar esse poder do outro. Então ao invés de concentrar suas energias querendo que as pessoas sejam diferentes, simplifique sua vida e mude você.

Cada mulher vive a maternidade de uma forma, e é um equívoco acharmos que poderíamos saber mais do que ela mesma sobre a experiência que está vivendo. Como saber qual o parto ideal? Como saber por quanto tempo deveria amamentar o filho? Existem evidências científicas, existem experiências, e existe o livre arbítrio. Ser mãe é colocar todas essas variáveis em uma balança na hora de fazer nossas escolhas, e  lidar com as consequências.

De repente, me vi pensando em tudo o que mudou na minha vida desde que me tornei mãe. Nas coisas que eu escolhi fazer diferente desde então, e em outras que acabei mudando sem perceber e sem pensar. E sem necessidade também.  Afinal, só porque a vida muda, temos que mudar quem somos junto com ela? Será que a maternidade exige mesmo tantas renúncias, ou nós é que vamos nos deixando de lado, por pura inércia ou preguiça de nadar contra a correnteza?

É muito comum aceitarmos o “COMBO MATERNIDADE” que nos é imposto, cheio de clichês e frases feitas. “Ser mãe é padecer no paraíso”. “Depois que você tiver um filho, nunca mais vai dormir.” “Amamentar é um ato de amor.” Mas se cada experiência é única, porque não escrevemos nós mesmas nossas próprias frases sem deixar de lado a essência de quem éramos antes de nos tornarmos mães?

Faça esse exercício, pense na sua vida antes da maternidade. Quais eram seus desejos, seus sonhos, suas vontades, seus hobbies? Que livros gostava de ler, que filmes gostava de assistir, que programas gostava de fazer? Isso tudo ainda faz parte da sua vida, ou você simplesmente esqueceu? E o mais importante: Nossos filhos merecem carregar a responsabilidade pelo nosso esquecimento?

Quanto a mim, já decidi que vou livrar meu quinteto desta culpa. A escolha de ser mãe foi minha, e embora seja indiscutivelmente minha melhor parte, ser mãe é uma função que eu agreguei a tudo que eu já era, mas que nunca deixou  de existir.  A Sabrina mulher, a Sabrina profissional, a Sabrina amiga, filha, esposa. Tenho certeza que para eles mais vale um Sabrina inteira, do que uma mãe perfeita pela metade.

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Sabrina Martins Schvarcz é jornalista por formação, bailarina por paixão, e mãe por vocação. Divide seu coração e seu dia a dia entre seus 5 filhos, o Ballet Carla Perotti e o Ballerine Atelier, onde atua como diretora, professora e figurinista. Conta um pouco da sua rotina no instagram @mamae5estrelas