Querido cérebro,

Eu sei que às vezes te ignoro. Te subestimo. Mando você ficar quietinho e não atrapalhar minhas insanidades momentâneas. É que eu cansei, sabe.

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Querido cérebro,
Eu sei que às vezes te ignoro. Te subestimo. Mando você ficar quietinho e não atrapalhar minhas insanidades momentâneas. É que eu cansei, sabe.
Eu sei que nunca fui muito obediente a você. Não vou tentar me iludir de que eu já fui racional um dia. Mas eu me controlei muito. Muito mesmo. Por que, de verdade, e eu sei que você sabe disso, eu sou muito menos racional do que fui naquele tempo. (Sei que você sabe quando.)
Eu fiz um plano e tentei segui-lo. Racionalizei todos os meus outros sentimentos que pudessem atrapalhar. Mas não foi um bom plano. Virei uma velha, sempre cansada, não tinha mais tesão na vida. Quando eu desisti e eu joguei a toalha, descobri que eu não tinha mais chão pra pisar. E depois que passou o medo e a apatia, eu desliguei você, não foi?
Por que era você quem não me deixava dormir, e que me castigou com uma insônia cruel e persistente. Cansei de pensar. Você me prendia em uma realidade de dor e mágoas. E eu te tranquei. Algemas e mordaças.
Desculpe. Mas não vi outro jeito. Precisava encontrar meu caminho. E, sem chão, o único jeito era voar. E não se voa com o cérebro ligado.
Você tem que entender. Questão de sobrevivência.
Também precisei perder algumas décadas que nem me pertenciam. Perdi neurônios, eu sei. Mas tudo bem. Dizem que não usamos muitos deles mesmo. Você nem vai sentir falta. Acredite!
Resolvi ouvir meu coração.
Era a vez dele, você sabe. Ele estava tão quebrado. Precisando tanto de mim. Juntos nos tornamos invencíveis. Me perdi um pouco em um turbilhão de novos sentimentos. Meu coração sempre foi meio cheio demais. Explodiu em pequenas paixonites e um grande amor.
Fiz um monte daquelas coisas que você tanto tentou me proibir. “Faz mal”. “Engorda”, “vicia”, “é perigoso!” “É imoral”. “Você enlouqueceu?”
Você podia ser bem chato…. Mas eu te entendo. Não te culpo. Te faltam asas….
Agora se acalma e fica aí bem quietinho. Não atrapalha meu voo. É minha vez de ser feliz.

* imagem Photo via Visualhunt.com
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Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.