A sua dor e a dor dele

O diabo que te carregue! capítulo 24

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Primeiro você viveu a fase da euforia. Mudar o estofamento dos móveis, limpar os armários, trocar os quadros e os porta-retratos, comprar outro colchão e novos edredons.

Depois, você entrou na fase da raiva. Não podia nem olhar na cara do seu ex que já tinha vontade de dizer: que o diabo te carregue! Tudo o que ele fazia era uma afronta, era cinismo, desaforo.

O vigor que a euforia dá não dura muito, no entanto, o vigor que vem da raiva pode te alimentar por meses, até anos, quiçá décadas.

Você está tirando forças do rancor, drogada, corrompida. Não pretende abrir mão da raiva, embora saiba que sua força é fictícia e que seu preço é alto. A raiva move suas atitudes, das cotidianas às fundamentais, e sabe-se lá por quanto tempo esse estado podre poderia se manter se o seu ex não tivesse rompido o lacre.

Certo dia ele te liga para saber das crianças e, de repente, como quem não quer nada, pergunta:

– Você não está com raiva de mim, está?

Pega de surpresa, você permanece em silêncio por alguns segundos. Raiva. Bem, você até pode ser um cão babando espuma branca, mas falsa é coisa que não é.

Mesmo com a possibilidade de soar ridícula, infantil e injusta, você diz ao seu ex o que está sentindo. Linha por linha, ponto por ponto. Você se sente sobrecarregada por estar sozinha tomando conta das crianças e isso te dá raiva; ele não guardou o devido luto depois da morte do relacionamento de vocês e isso te dá raiva; ele vive nas baladas, saltitante, cheio de amigas e isso te dá raiva; ele saiu do processo de separação ileso e isso te dá raiva.

Seu ex a escuta, linha por linha, ponto por ponto, e depois diz: isso é ridículo, é infantil e injusto.

Sim, você sabe que os motivos que te deixaram com raiva são ridículos, infantis e injustos. Mas são seus. É como você se sente. Podem não ser bonitos, podem não falar direito, podem até cheirar mal, mas eles são seus e são reais. Enquanto eles estavam cobertos pela raiva, você nem os enxergava direito ou não queria admiti-los. Agora, pelo menos, você pode fazer alguma coisa a respeito.

Você desliga se achando uma completa idiota. Agora ele sabe como você se sente e nem o amor próprio te restou.

À noite, você vai verificar os e-mails e lá está uma mensagem dele.

Seu ex diz que está sofrendo e sofrendo tanto que tem saído todas as noites justamente para fugir desse luto que o ameaça como um cão Cérbero, tem saído para não ouvir a casa silenciosa, sem as vozes das crianças, para não olhar para uma cama estranha e uma sala estranha e um banheiro estranho com o qual ele não consegue se identificar. Ele tem medo da dor e está resistindo como pode. Se parece alegria, não é. Embora ele não devesse lhe dar satisfações porque vocês estão separados, ainda assim, ele lhe diz: não saiu ileso da separação coisa nenhuma.

Cada um foge da dor como pode. Você usou a comida, a depressão, a raiva; ele usou as noitadas. E nenhum dos dois está feliz.

P.S.: Depois de ter te escrito o e-mail, seu ex saiu para comprar cigarros e, por impulso, entrou numa igreja. Se sentou no fundo, num cantinho, e chorou por quarenta minutos sem parar. Mas isso você nunca vai saber.

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net