Recolhimento, o resgate de toda mulher

O recolhimento de uma mãe é visto como falta de amor. A vontade de estar sozinha, de uma mulher, como egoísmo. A nós não nos é dado o direito de não fazer nada. Não temos valor no ócio. Precisamos estar disponíveis e cuidando do mundo o tempo inteiro. Precisamos mesmo?

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Toda mulher precisa de recolhimento. As mães precisam mais. Porque multiplicar-se é dividir-se, romper-se em duas, em três, infinitas. E dificilmente reunir-se novamente em uma só. O ser inteiro de antes, agora fragmentado, leva tempo até reconhecer-se. Quem é esta que nasceu em mim? Onde está aquela que sempre fui? Anestesiadas, juntamos caquinhos de nós mesmas enquanto amamentamos, trocamos fraldas, sorrimos para as visitas e desesperadamente buscamos no espelho o olhar cúmplice daquela que fomos. A essência que nos acalentava e nutria não está mais ali. Sumiu, desapareceu. Por que nos abandonou?
Então os filhos crescem e a busca continua. Mas as obrigações aumentam e o tempo de nos reencontrarmos diminui. A angústia levanta fervura. Há um imenso quebra-cabeça espalhado dentro de nós, cada um que passa dá um chute, pisa, as pecinhas se espalham e as miramos desamparadas, sufocando o ímpeto recolher uma a uma e começar a montá-lo. Um desejo tão urgente que nos paralisa. Suspiramos, entregues. E vamos fazer o café, colocar a mesa, que o marido está chegando, o relatório está esperando, a criança está chamando. Quanto do seu tempo é seu, e somente seu?
Uma amiga que mora no exterior me confidenciou que o marido e o filho queriam muito assistir aos jogos da Copa. Ela não. Não fazia a menor questão, só de imaginar as filas em aeroportos e estádios lhe deu calafrios, mas ficou feliz com a oportunidade de ter, depois de anos e anos de casamento e vida em família, um momento só para si. O que faria nesse tempo? Suspiraria, fecharia os olhos, essas coisas que fazem as mulheres quando se recolhem. Propôs de os dois irem ao Brasil sem ela. Foi um auê. Como assim irem sem ela? Nem pensar.
O recolhimento de uma mãe é visto como falta de amor. A vontade de estar sozinha, de uma mulher, como egoísmo. A nós não nos é dado o direito de não fazer nada. Não temos valor no ócio. Precisamos estar disponíveis e cuidando do mundo o tempo inteiro. Precisamos mesmo?
Antigamente as mulheres tinham na igreja o seu refúgio. Não falo em religião, falo do templo, o espaço físico e etéreo, com paredes infinitas que tocavam o céu e elevavam a alma. Bastava respirar fundo, unir as mãos, fechar os olhos e voar. Assim, flutuavam através das abadias e de si mesmas. Absorviam o pacificador aroma dos incensos, ajoelhavam sobre seus pensamentos, ouviam o silêncio. Uma mulher não podia nada, mas podia rezar. Podia adentrar a escuridão do seu eu e encontrar a luz. Quando, hoje, fazemos isso? Em que momento nos dedicamos ao encontro com o nosso mais íntimo ser?
Minha avó Conceição, a vó Mimosa, foi laureada como uma das frequentadoras mais assíduas e antigas de sua paróquia em Porto Alegre. Congregada Mariana, recebeu uma homenagem por ter ido à missa todos os dias dos seus últimos 65 anos. Desde os 15 não faltava nunca, nunca mesmo. Lembro que, na época, isso me marcou profundamente. Era mais do que um encontro sagrado, ela simplesmente adorava ir à igreja. E rezar. Eu, pré-adolescente, me perguntava: mas o que ela gosta tanto nesse troço?
Hoje eu acho que ela não era apenas devota de Maria, mas de si mesma. A igreja era o único lugar aceitável para uma “mulher decente” frequentar sem ser vigiada, cobrada, reprimida. Uma mãe não podia abandonar o trabalho de casa jamais, a não ser no horário da missa. Não podia ausentar-se do cuidado com os filhos, mas se precisasse rezar, podia dar uma saidinha. Era a libertação da rotina, a descompressão, a congregação de Marias, Eusébias e Jacintas. Elas chegavam mais cedo, abraçavam-se, trocavam vivências. Elas ficavam até mais tarde em profunda meditação. De manhã, à noite, no meio da tarde, um encontro íntimo com elas mesmas. Como não amar?
Nós, mulheres, conquistamos coisas incrivelmente positivas nas últimas décadas, da independência financeira à liberdade sexual. Virgindade é um tabu em extinção, casamento tornou-se opção, podemos escolher se desejamos ou não filhos, transar na primeira noite, podemos dirigir, votar, nos divorciar sem ostracismo social, assumir presidências em empresas e até do país. Foram tantas as mudanças e tão eufóricas estávamos por elas que, ao fazermos as malas rumo aos novos tempos, deixamos para trás a única peça que nos salvaguardava de nos perdermos pelo caminho: o recolhimento.
Somos donas do nosso nariz e queremos mudá-lo com cirurgia plástica. Somos senhoras do nosso corpo e o renegamos. Estamos insatisfeitas com a aparência, com a profissão, com a família, com a solidão, com a maternidade, com a ausência de filhos, estamos inconformadas com tudo o que temos e também com o que nos falta. Buscamos um ideal impossível e inatingível, sentimos uma saudade constante e imensa do que ainda não vivemos. Por que nos desprezamos, nos depreciamos, nos mutilamos tanto? Por que esse abismo de insatisfação?
Porque não nos reconhecemos mais. Quem sou eu, o que quero, do que gosto, o que me faz feliz e contenta, o que me coloca pra baixo, o que me eleva, que talentos tenho e como eu os uso, o que está em mim e não é meu e preciso me descartar, que características são minhas genuinamente e o que me foi imposto, o que é o amor e como eu aceito ele em mim? Precisamos nos dar as mãos e formar um imenso círculo de resgate do feminino. Precisamos resgatar o que nos torna únicas.
Você, eu, todas nós necessitamos fazer uma viagem interior (e exterior também, por que não?) sozinhas. Juntas. Yoga, meditação, dança, retiro espiritual, tomar banho de cachoeira, de sal grosso, de rosas!, tirar um sabático pelo mundo, pela cidade vizinha, pelo bairro, por que não? Encontre seu momento de conexão com a sua essência. Desligue o computador, desconecte-se do Facebook, feche a porta do quarto, abra a janela. Respire. Fuja dos templos barulhentos e que te impedem de silenciar, fuja dos templos de consumo. Consuma-se. Recolha-se. Reconheça-se. E abrace-se.

Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.