Relatos de filhos após a separação dos pais

Nestes relatos, fica muito claro sentimentos de rejeição, culpa, falta de reconhecimento, falta de conexão, frustração, mágoa e outras dores que causam cicatrizes emocionais.

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Photo by Jordan Whitt on Unsplash

“Eu tinha meu pai como se fosse um verdadeiro herói, como se ele fosse um príncipe. E eu sempre pensei em casar com uma pessoa igual ao meu pai, porque ele tratava bem minha mãe, e a separação repentina do meu pai e minha mãe foi um golpe para mim…ele já apresentou uma nova família após uma semana e eu me senti trocada.

Eu sempre tirei boas notas, mas depois disso eu me descuidei da escola, eu comecei a tirar notas vermelhas, comecei a bagunçar, tentar chamar a atenção. Minha mãe por diversas vezes foi à escola, e ela ficava se perguntando: Meu Deus, o que eu estou fazendo de errado com a minha filha?  Eu comecei a “virar a cabeça” porque eu não via sentido, pois eu vivia tirando boas notas para que meu pai viesse e  falasse: Nossa filha, parabéns! E de repente eu já não tinha mais aquilo. Então, minha mãe começou a ficar muito confusa e eu também, porque eu queria chamar a atenção de alguma forma, de alguma maneira eu queria que eles pudessem ver que eu estava sofrendo. Que eu estava sentindo aquilo.”

Este relato é de uma adolescente de 18 anos, que quando tinha 11 anos os pais se separaram.

“Naquela época eu só chorava, eu não sabia o que fazer, daí minha mãe tinha que estudar, trabalhar, e eu tive que assumir responsabilidades em casa com meu irmão mais novo e que eu nem sabia o que eu estava fazendo direito. Eu comecei a buscar apoio nos meus amigos, que não estavam indo para um bom caminho, e eu via meu pai com a nova família dele e minha mãe destruindo os meus sonhos em acreditar que é possível ter um verdadeiro lar, eu me sentia muito perdido”

Este relato é de um adolescente que viveu a separação dos pais quando criança.

Nestes relatos, fica muito claro sentimentos de rejeição, culpa, falta de reconhecimento, falta de conexão, frustração, mágoa e outras dores que causam cicatrizes emocionais.

Muitas vezes a mágoa, torna distante o amor mãe e filho. A dor da separação é tão grande que corremos o risco em projetar nossas frustrações em nossos filhos após a separação.

Outro sintoma que devemos prestar atenção é a culpa. Achar que tudo o que acontece após a separação é culpa das mães, e não é bem assim. É necessário ter um olhar mais profundo diante de toda esta situação.

E por isso que é muito importante ligarmos o nosso radar, mesmo diante da nossa dor, e desenvolvermos a habilidade em ter um olhar para dentro do coração dos nossos filhos. Precisamos aprender a identificar o que nossos filhos estão sentindo, e a maioria das vezes esses sentimentos são manifestados através de comportamentos que muitas vezes não conseguimos interpretar.

Uma outra questão é que muitas vezes, precisamos dobrar nosso ritmo de trabalho, e acabamos não tendo tempo para observar ao redor, e é aí que abrimos a brecha para a falta de diálogo e a falta de conexão.

Eu costumo dizer: “Você se separou do pai dos seus filhos, foi doloroso, então não queira que seu filho se separe de você. Tome atitudes enquanto há tempo!”

Por mais desafiador que seja, pare diante do caos e tenha um olhar profundo para o pedido de socorro que seu filho está clamando. Muitas vezes este pedido de socorro é silencioso, por este motivo é necessário redobrar sua atenção ao comportamento e às emoções dos seus filhos.

Se na época em que me divorciei do pai da minha filha, quando ela tinha apenas sete anos, eu tivesse me antecipado, tivesse um olhar para os comportamentos que ela apresentava, eu teria evitado muito sofrimento para ela. Só hoje, que ela tem dezesseis anos, eu entendo o quanto ela sofreu e muitas vezes sofreu silenciosamente e o pior, por conta da minha ausência e da falta de habilidades emocionais, eu senti a dor do afastamento dela. Nenhuma mãe merece sentir a dor da rejeição de um filho! Eu não desejo isso à ninguém! – Andressa Benitz

Não espere que seus filhos venham fazer um pedido de socorro através de comportamentos provenientes da dor. Seja uma mãe atenta e presente na vida dos seus filhos após a separação. Eles precisam muito que você seja o porto seguro deles.

Eu entendo que quando estamos no processo de dor, nossa visão fica um pouco “turva” diante das situações das pessoas mais próximas, pois a dor causa “cegueira”, o que leva ao sofrimento, pois é neste momento que podemos nos perder e assistir de camarote os nossos filhos escapando pelos dedos de nossas mãos.

Tem uma frase que faz sentido neste momento: “A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”

Portanto se eu puder fazer um clamor hoje é que: Não permita que o sofrimento cause cegueira ao ponto de você perder a conexão com seus filhos.

Seus filhos precisam do seu olhar amoroso, precisam ser acolhidos neste momento.

E não esqueça de dizer aos seus filhos o quanto eles são importantes e o quanto são e serão amados, independente do que aconteceu e o que venha a acontecer! Nada entre vocês vai mudar! Que tudo isso apenas servirá para fortalecer o amor de vocês. Com isso, além de fortalecer os laços afetivos com seus filhos, você estará ensinando que mesmo nas adversidades existe um aprendizado, existem oportunidades diante dos desafios.

E lembre-se: O exemplo e o amor sempre vencem!

Andressa Benitz é mãe, coach e treinadora de mães e filhos. Idealizadora do Programa “Mães no Controle” de Suas Emoções, Andressa ajuda mães vencerem os desafios em lidar com os filhos e a sobrecarga da vida moderna, desenvolvendo Mães Capazes de Educar Seus Filhos de uma forma amorosa, conectada e respeitosa em cada fase da vida deles.