SALA DE REVELAÇÕES

(Continuação de ORGASMO FOTOGRÁFICO)

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O beijo de Jack fez clic. E não foi por ele ser fotógrafo. Sentir o corpo quente e nu de Jack encostando no meu, o peito dele roçando meus seios, os braços encilhando-se costas afora como plantas trepadeiras, arrepiou-me a alma. De olhos fechados, as luzes do cenário queimando a minha pele, os lábios em meu lobo, pescoço, ventre, púbis, estava difícil de respirar. Eu arfava.

 

Jack era todo invasivo, língua, dedos, palmas-ventosas das mãos. Imobilizei-me na cadeira feito presa anestesiada numa teia de sedução. Ele comandava, eu gemia. Ele me degustava, eu tremia. Ajoelhado na minha frente, seus beijos loucos avançaram flancos. Senti seu peso em cima de mim. E o mundo de repente virou de cabeça pra baixo.

 

Caímos no chão. Rolamos, literalmente. Não foi uma queda teatral e perfeita, foi um tombo real, dolorido. Jack bateu no suporte de ferro de um dos rebatedores de luz e cortou de leve a testa. Ergueu-se tonto sobre os cotovelos. Um filete de sangue aventurou-se a escorrer tímido, desenhando uma listinha vermelha em direção ao queixo másculo. A mim nada aconteceu a não ser ter sido invadida por uma compaixão incomensurável: morri de ternura. O dano não foi físico, o caso era mais grave: meu coração amoleceu. “Você está bem? Está doendo?”, toquei o ferimento. Ele fez que não. Deitou-se no piso, descontraiu o semblante de dor e começou a rir. Suspirei aliviada. Soltei-me também. Juntos, gargalhamos feito duas crianças, abraçadas.

 

Joguei minha blusa sobre o corpo, vesti a calcinha. Ele ficou sem camisa, só de calça e pés nus. Fomos até a cozinha. Ele sentado num banco, eu em pé, improvisei um curativo com esparadrapo e algodão. O corte não foi fundo, ainda bem. Enquanto eu terminava a função de enfermeira, Jack alisava a minha barriguinha sarada. Meus peitos estavam na altura da boca dele, desejei, mas ele não mordeu. Ao invés, seus dedos subiam e desciam pela minha geografia, insinuavam-se na bordinha da calcinha, visitavam meu umbigo, escorregavam para os lados da cintura, infiltravam-se na dobrinha-caverna embaixo do seio, saíam da toca, rodopiavam pelo mamilo, saltavam do trampolim bicudo rumo a precipícios escondidos outros.

 

Mordi os lábios. “Não faz isso comigo”, pensei. Faz sim. Fechei os olhos para sentir melhor. Não me movi, ao menos não voluntariamente. Pequenos espasmos eclodiam aqui e acolá, tremeliques de tesão. Ele aproximou a boca de um dos meus seios, abriu-a e, sem encostar, soltou um ar quente. Intumesci. Dois segundos de expectativa. Encostou a ponta da língua e, com movimentos circulares também nas minhas costas, massageando-me, me fez sentir a nuca. Ericei feito gata no cio. Céus.

 

Um puxão viril me tirou do transe. Abocanhou-me inteira, mamou, mordeu, doeu. Cravei as unhas no crânio maciço, meus dedos contorcendo-se crispados, correndo soltos no trigal dos tosados cabelos dele. Eu, uma amazona sobre um cavalo descontrolado, agarrada ao pescoço, acompanhando com o corpo o alucinante galopar do desejo. Nossas bocas se encontraram, garganta com garganta. Engolimo-nos. Fotografias deste momento ainda estão penduradas, pingando, no varal da minha memória. Só de lembrar, fiquei molhadinha.

 

Descolamo-nos com um estampido. Ofegantes, nossos olhares, dentro um do outro, piscavam surpresos com o excesso de volúpia. A distância de quinze centímetros entre nossas narinas pulsantes ajudou-nos a manter a compostura. Um milímetro a menos, teríamos sucumbido de vez. “Vem cá”, me puxou pela mão. No caminho, roubou um copo usado dentro da pia, enxaguou rapidinho, encheu com água da torneira, emborcou um gole sôfrego, limpou os lábios com o dorso do braço. “Vem”, estava com pressa. Algemada pela força do punho dele, eu parecia uma boneca de pano arrastada pelos recantos do estúdio. Apanhou a câmera do tripé, verificou o equipamento. “Vamos”, continuei seguindo-o. Não fazia ideia do que ele estava aprontando.

 

Atrás de um biombo, havia uma discreta porta. Ela corria de lado, ele a puxou. Uma cortina grossa apareceu, rompemos através como se cruzássemos um portal. Breu total. Dois passos, uma nova cortina, outra porta. E eis que uma sala pequena, com mesas altas, luz vermelha, ampliadores e bandejas olímpicas com fotografias nadando livres, outras secando em esteiras giratórias, se apresentaram. Então era ali que ele se revelava. “Esse é o meu parque de diversões”, sorriu. O cheiro era estranho, mas gostei do lugar. Um mausoléu de momentos imortalizados. “Você quer brincar comigo?”, apagou a luz. Dei um gritinho de euforia. Onde ele estava?

 

Tateando no escuro, encontrei-o. A sala estava fria, meus dedos estavam gelados. Outra vez o calor da respiração dele. Dessa vez fui eu que caí de boca. Não necessariamente na boca dele. “Ahh”, um gemido quebrou o silêncio. Estalos suculentos seguiram-se, cadenciados. Ritmos e volumes aumentaram. Uivos eclodiram. Sem enxergar um palmo diante do nariz, com nenhuma teoria ou manual de fotografia, aprendi na prática: o que quer que aquelas lentes e líquidos e odores fizessem naquela sala de ampliação, as coisas ampliavam mesmo.

 

Jack tirou a tampa do rolo com o qual me fotografou, desenrolou o filme, prendeu em um grampo e jogou para dentro de um tonel cheio de um líquido com forte odor. Depois transferiu o filme para outro tonel. Depois para outro e outro, sempre medindo temperaturas e tempo. E o tempo às vezes parava e as temperaturas às vezes subiam.

 

Quando o processo terminou, reacendeu a luz-penumbra. Deslizou o dedo pela minha espinha enquanto me empurrava de leve em direção a algumas fotos já reveladas. “Uau”, babei. Eram trabalhos experimentais, ele explicou. E seguiu falando sobre as mudanças no processo criativo com a chegada definitiva da tecnologia digital. “No laboratório não rola Photoshop, uma simples alteração na qualidade da água pode interferir no resultado final. E isso é muito excitante”. Concordei, sem conseguir desgrudar a retina do dorso dele, suado, largo e apetitoso.

 

“Agora é que vem a parte boa”, falou. Eu estava achando tudo ótimo há horas. Jack fez um provão das fotos e ficou namorando frame a frame. “Está difícil de escolher”, elogiou-me, “você é linda”. Sorri. Apontei uma que me chamou a atenção: “Amplia essa”. Ele me olhou e, maroto, provocou: “Quer aprender?”. É claro que eu queria, ainda mais com um professor daqueles. Aparelho após aparelho, bandeja após bandeja, fui me revelando. Boca, ombros, colo, o olhar dele sobre os meus desejos. Reagentes são importantes, mas o segredo é a química. Deu liga. E as posições não captadas no papel, ao vivo e a dois, são sempre muito melhor.

 

*Continua em “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.

O Diário de Verônica Volúpia – As picantes confidências de uma libertina moderna, ousada, sexy. Sem tabus. livraria.bookstart.com.br

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Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.