Saudade de quê?

Me admira essa vontade de viver em tempos mais românticos, de retornar a uma época em que, segundo dizem, a mulher era mais respeitada. De que raio de respeito e romantismo essas pessoas estão falando?

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Estava eu avançando na leitura de “Relações Perigosas”, de Choderlos de Laclos, quando, ao virar a página 370, bati os olhos no relógio. Precisava sair: eu tinha uma reunião. Duas horas depois, estava eu pensando em pegar minha bolsa para ir embora da tal reunião quando, num devaneio pós-trabalho, uma senhora se lamenta: “Ninguém mais se casa virgem como eu, não há mais respeito à mulher nem aquele romantismo de antigamente”. Sadismo, virgindade, respeito, relações perigosas. E eu ainda nem havia chegado às 4 da tarde.

Me admira essa vontade de viver em tempos mais românticos, de retornar a uma época em que, segundo dizem, a mulher era mais respeitada. De que raio de respeito e romantismo essas pessoas estão falando? De desencaixes sexuais e emocionais que tinham de ser suportados até o fim da vida? De silêncios opressores à mesa do jantar? De homossexuais amordaçando suas verdadeiras vontades dentro de casamentos duplamente torturantes? De histéricas se contorcendo de desejo entre toucadores perfumados? Das hipocrisias sem conta que esses tempos encerravam?

Estamos falando da pantomima que Choderlos inventou para que seu romance não lhe trouxesse grandes prejuízos? Quando “Relações Perigosas” foi publicado, em 1782, o autor disse que as cartas de que se compõem o livro eram reais e que o objetivo da publicação era apenas moralizar a sociedade.

Estamos lamentando a perda do que? De rapazes lendo “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, e se matando às pencas por causa de uma paixão? De um mísero e único amor? Ainda que fosse um amor fundamental e inesquecível, o fato de que sempre haverá outros foi solenemente ignorado, deixando campo aberto ao suicídio, afinal era uma época tão romântica!

Lembro da mãe de uma amiga de escola revelando a nós duas, em sua sala de estar cheia de bibelôs, que nunca havia dado um beijo de língua. Por que? Porque o marido achava isso coisa de prostituta e ela acreditara nele. Em meus inocentes 16 anos eu, que nem ainda havia sido beijada, fiquei olhando para aquela senhora e sentindo uma pena imensa dela. Por conta desses tais tempos respeitosos e românticos ela nunca conheceu o prazer de um longo, profundo e erótico beijo na boca.

Minha tia-avó Tereza, a caçula da família, se casou virgem com um homem considerado um excelente partido. Do interior de São Paulo ele a levou para uma mansão no Rio de Janeiro. Seis meses depois minha tia foi encontrada no porão desse mesmo endereço. Ela estava com tuberculose, perdera metade do peso e havia por todo o seu corpo marcas de chicotadas. Pouco depois ela morreria vítima dos maus tratos infligidos por seu marido, um sádico sexual. Talvez hoje ele estivesse num clube privê chicoteando quem com isso se deleita, mas naquela época ele se casou e espancou minha tia-avó até a morte escondendo-a no porão sem que ninguém conseguisse intervir, afinal eram tempos tão românticos e respeitosos!

Eu pretendia falar da sádica Marquesa de Merteuil e do sedutor pimpão (e tolo como todo sedutor pimpão) Visconde de Valmont, mas me deixei levar. Fica, porém, a dica: o livro é chatíssimo, no entanto o filme “Ligações perigosas”, de 1988, com John Malkovich e Glenn Close (ambos insuportáveis de tão bons) é maravilhoso – e digo isso sem nenhum saudosismo daqueles tempos.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net