Sem endereço emocional

“O diabo que te carregue!” - Capítulo 47

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Photo credit: State Library of New South Wales collection via Visualhunt.com / No known copyright restrictions

Você desliga o carro – que sua irmã te emprestou, já que o seu foi destruído no acidente – e, mesmo ele estando na garagem do seu prédio, aciona o alarme.

Você pega o elevador, aperta o quinto andar, e puxa a calcinha. Maldita calcinha minúscula de lycra, sempre entrando na bunda. A luz embaciada do hall se acende assim que você põe os pés nele.

Você tranca a porta do apartamento, vai direto ao banheiro e procura o demaquilante. Ao se olhar no espelho você encontra uma mulher silenciosamente furiosa. E não é para menos.

Na última hora, você esteve em pé e sozinha em frente à bilheteria de um cinema de arte. Você já havia passado por todo tipo de experiência no aplicativo de relacionamentos, menos esperar por alguém e ele não aparecer.

Não, não foi um engano. Você permaneceu atenta a todos os homens que chegavam e nenhum deles, nem de longe, se parecida com as fotos de Mario. Uma hora. Em pé. Sozinha.

Todos os modernosos com óculos esquisitos da cidade passaram por você durante aquela uma hora, todos registraram sua presença ansiosa e solitária com um vago olhar de desprezo. E ele, ele, ele não apareceu.

Pior do que devolver para a gaveta roupas íntimas que seriam usadas num encontro que não saiu da promessa, é tirar a maquiagem que ninguém viu – ninguém além do manobrista do estacionamento e alguns estranhos insignificantes para você.

Um desperdício de produtos do Boticário, de precisão no uso de pincéis e de tempo em frente ao espelho. O viço da sua pele já não é mais o mesmo de quando você tinha vinte anos e, a cada vez que você esfrega o demaquilante no rosto, tem a sensação de que joga fora mais um naco de precioso colágeno. No quinto chumaço de algodão, você decreta em voz alta: “Chega!”

Você não vai mais procurar ninguém. Não porque tenha desistido de se enroscar numa perna cabeluda pensante, não porque tenha aberto mão de ter um namorado legal, mas, sim, porque a voracidade da sua procura não tem deixado espaço para que a vida (inclusive e principalmente a vida amorosa) siga num ritmo espontâneo.

Em outras palavras, você vai desencanar e o que tiver de acontecer irá acontecer. Sim, você dará uma de esotérica e deixará que o universo te guie até alguém que seja bom para você. Porque, discursos xiitas de autoajuda à parte, você não está feliz sozinha.

Você aproxima seu rosto do espelho e examina a vermelhidão produzida pela retirada da maquiagem. Em pouco tempo, você estará pálida como um fantoche. O desespero não tem sido um bom hidratante. Você lava o rosto seguidas vezes com água fria – e depõe as armas.

Sem dúvida, o mundo era mais simples quando você estava casada: você possuía um endereço emocional, você pertencia a alguém, você sabia exatamente o que fazer nas noites de sábado. E agora, depois de tantas decepções, você está simplesmente esgotada.

A sanha de encontrar alguém nada mais é do que um tapa buraco para as feridas da separação que ainda não fecharam. E todo mundo sabe: uma ferida tampada não cicatriza.

Então você vai confiar no acaso, no seu anjo da guarda, em probabilidades matemáticas ou em tudo isso junto. Que seja natural. Simplesmente natural.

Mas será que esse é o tipo de decisão que se toma? Que se impõe a partir do quinto chumaço de algodão com demaquilante?

Você apaga a luz do banheiro, vai até a cozinha e prepara um Nescau gelado. Uma vez na sala, você procura aquele livro que está te esperando há meses.

-Chegou sua hora, amigo – você diz retirando-o da estante. – Vem cá que eu tenho todo o tempo do mundo para você.

E tem mesmo. Mais tempo do que você gostaria.

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net