Sem quilometragem, no hay banda

32 - 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens - Capítulo 7

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Photo credit: °]° via Visualhunt / CC BY-NC-ND

 

Por ser a primeira tatuagem, por ser especial, por marcar o início de um processo desconhecido pelo qual eu pretendo passar várias vezes, achei que ela só poderia se referir ao meu primeiro homem, afinal, tirar a virgindade de alguém com competência é tarefa difícil. O cara precisa de coragem para topar a empreitada. E não me venham com essa história de que o instinto dá conta do recado: eu já fui virgem, já transei com dois caras virgens, e, sinceramente, neguinho pode ter o instinto de um tigre siberiano: sem quilometragem, no hay banda, como meditaria David Lynch.

 

E Caio – essa abençoada criatura que teve a bondade de me desvirginar – tinha quilometragem pra caramba. Com mulheres, com homens, com travestis, patricinhas, marinheiros, prostitutas e cabritas. Eu o conheci numa das minhas descidas solitárias ao Guarujá. Estava na rodoviária e, antes de embarcar, pensei: “Tomara que nenhum chato sente ao meu lado”. Porém, ao chegar à poltrona 16B, dei de cara com um loiro parrudo na 16 A.

 

Naquela noite – não a noite em que nos conhecemos, mas três semanas depois –, a praia estava repleta de devotos do candomblé tocando atabaques e fazendo oferendas a algum orixá: era outubro ou novembro, não lembro bem. Os sons dos rituais invadiam o apartamento, a cortina branca navegava furiosa na ventania e eu me senti protagonizando uma cena de “Coração Satânico”. E foi bom. Foi excepcionalmente bom para uma primeira vez – que, vamos combinar, costuma ser uma porcaria.

 

Eu e Caio namoramos firme por cinco meses, até que um dia, andando de mãos dadas pelo calçadão, eu vi nosso reflexo numa porta espelhada: ele era mais baixo do que eu! Como eu não havia percebido isso antes? Desapaixonei na hora. O fato de sua sexualidade ser mais plural que nós, vós e eles não me incomodava, mas Caio ser mais baixo do que eu… ah, isso foi demais.  Eu era mesmo muito esquisita aos dezessete anos.

 

E chega de devaneios: eu estava num estúdio de tatuagem profissional, com hora marcada e era preciso começar. Sentei na cadeira e abri bem os olhos, embora essa providência fosse inútil, já que eu estava de costas para Deco. Tive vontade de pedir a ele que abaixasse o som (uma mistura de rockabilly com black metal), mas supus que quem precisava estar confortável ali era o tatuador, não eu, então permaneci quieta.

 

Ouvi o barulho do motor. Senti a vaselina sendo espalhada na minha pele. E então, ele deu a primeira estocada.

 

Tatuagem queima como o inferno. A sensação que tive foi essa: várias queimaduras feitas com uma caneta em brasa. A dor, porém, é suportável – como a dor de perder a virgindade também é, desde que você realmente esteja a fim.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net