Sensação de partilha

Sabe aquele dia em que você levou um fora, perdeu o emprego ou sentiu uma imensa tristeza sem nome? É aí que, ao ler seu escritor favorito, você experimenta a sensação de partilha e, por um instante ou dois, se sente reconfortado.

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Ouvi de muitos leitores (curiosamente apenas do sexo masculino) que minhas crônicas têm fomentado a guerra entre os sexos. Disseram eles que existem homens leais no jogo romântico e que eu faço muito mal em jogar lenha nessa fogueira.

Muito bem. Existe algo que eu repito há vinte anos e vou continuar repetindo por mais vinte numa boa (é para isso mesmo que eu estou aqui). Crônica – o que eu faço neste espaço – é um gênero literário que comporta a ficção, a ironia, o exagero. Comporta também o contrassenso, as generalizações e tudo o mais que é politicamente incorreto. Escritores não são jornalistas, não são sociólogos ou antropólogos, não são psicanalistas ou filósofos. Nós não temos compromisso com a imparcialidade, com a história ou a estatística, com o que é razoável ou com a rebimboca de Piraporinha. Por gentileza, não confundam as profissões. Escritores têm compromisso apenas com suas próprias entranhas e, por consequência, com as entranhas dos seus leitores.

O fato de que há homens leais, de que não existem pérfidos (e pérfidas) absolutos, de que no dia seguinte tudo pode ser diferente (coisas com as quais eu concordo) não anula a necessidade que todos temos de vomitar nossas dores. Sabe aquele dia em que você levou um fora, perdeu o emprego ou sentiu uma imensa tristeza sem nome? É aí que, ao ler seu escritor favorito, você experimenta a sensação de partilha e, por um instante ou dois, se sente reconfortado.

Sem vomitar em algum lugar e de alguma maneira o que destroça a alma, não há perdão que consiga emergir: um é o primeiro passo, o outro é o último. Alguém por aí pode até supor que se recupera dos seus problemas sem purgar nada em lugar nenhum: será? Há quem, sem perceber, drene a própria dor humilhando os subordinados, sendo um animal no trânsito ou enchendo a cara de uísque. Eu prefiro ler uma crônica.

Quando o sofrimento é um arame farpado rasgando sua garganta você não quer ouvir que há bondade no mundo e que nem todo mundo é ruim (o que é óbvio): naquele primeiro momento, você só quer saber se não está sozinho no escuro e úmido poço da desilusão. E, no que concerne aos meus leitores, homens e mulheres, eu posso lhes garantir que não, vocês não estão sozinhos.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net