Sua vida amorosa

O Diabo que te Carregue capítulo 42

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Seu ex comenta, como quem não quer nada, numa festa da escolinha das crianças, que não está mais namorando. Você hesita em perguntar a razão do rompimento, talvez ele não queira te contar e é um tanto humilhante alguém que foi seu marido – que tinha, tecnicamente, a obrigação de te contar tudo – ter o direito, e exercê-lo, de não querer te contar intimidades.

Pensando bem, se ele não quisesse te contar nada sequer teria mencionado o fim do namoro. Essa não é uma informação relevante para o cuidado das crianças, portanto, se ele te contou isso, pode querer te contar um pouco mais. Então, você arrisca:

– O quê que houve?

– Nada de mais, você sabe.

Não, você não sabe.

– Não, eu não sei.

Entre uma canção e um bailado desconexo, ele responde:

– A diferença de idade fez diferença.

– E de quanto era essa diferença?

– Catorze anos, ela tinha catorze anos a menos do que eu.

– Não é tanto assim – você responde e se surpreende com sua magnanimidade.

– É, mas pesou.

De repente, ele estoca:

– E você?

– Eu o quê?

– Como é que anda sua vida amorosa?

Quá! Sua vida amorosa.

Você vai ter coragem de dizer a verdade? Foram nove as suas tentativas até agora.

O primeiro, logo de cara, no café, pediu para que você o amarrasse na cama e batesse nele com um chicote de couro – você picou a mula rapidinho.

O segundo, entre um guanará gelado e outro, disse, muito entusiasmado, que queria fazer novos amigos, muitos amigos, que queria, de verdade, ter um antro de amigos. Um antro? Você foi embora pretextando muita roupa para passar em casa (a desculpa mais broxante do mundo, que te associa à rotina de anódina dona-de-casa). Antro de amigos é mais do que você pode suportar.

O terceiro ficava conversando com você no WhatsApp, mas encontrar que é bom, nada. Você o encostou na parede: “vamos nos ver ou parei por aqui.” E ele te viu. E você o viu e ficou encantada, com a língua arrastando no chão. E vocês passaram uma noite simplesmente fantástica (um dia de piscina) e, mesmo depois de catorze horas de motel, ele não quis mais sair com você. Por quê? Você nem imagina.

O quarto se interessou e quis ir adiante, mas você não gostou do jeito dele, do jeito que ele mexia as mãos, do jeito que ele contava as coisas, do jeito que ele tomava café, do jeito que ele se vestia, do jeito que ele respirava, do jeito que ele sorria – e não gostar do jeito de alguém é o fim. O fim do que nem começou.

O quinto na hora de escolher um lugar para vocês se encontrarem, sem o menor sinal que o habilitasse a tanto, sugeriu um motel. Para ele, vocês deveriam se conhecer já nus em pelo – você o mandou plantar batatas no deserto de Chachapoyas.

O sexto te chamou para sair, cancelou em cima da hora, chamou de novo, cancelou de novo, chamou mais uma vez e, quando você achou que o encontro finalmente vingaria, ele mandou uma mensagem no WhatsApp dizendo que iria se mudar de última hora para a Finlândia.

O sétimo conversou, telefonou e marcou encontro num café. Quando você chegou, surpresa: a cara era anão! As fotos do rosto – um rosto proporcional – te enganaram direitinho. Você se esqueceu do politicamente correto e do direito das minorias e deu uma bolsada na cara dele quando ele falou, na maior naturalidade: “E aí, gatinha?”

O oitavo parecia lindo e inteligente, mas ao vivo era dentuço (por isso não havia fotos dele sorrindo) e cuspia gotículas de saliva ao falar. Você não quis nem saber daquele ventilador de cuspe.

O nono cumpriu todo o ritual. Passou no teste do café ao vivo e a cores, passou no teste da cama, quis te ver de novo, mas vivia esquecendo a carteira quando vocês saíam. Você, uma mulher do tipo que divide a conta sempre, foi deixando passar. Um dia, quem esqueceu a carteira foi você – propositalmente – e três milagrosas notas de cinquenta apareceram no bolso dele, impedindo que vocês tivessem de passar a noite lavando pratos num restaurante. O cara era um avarento compulsivo. Ele não te ligou mais, nem você.

– Então? Como é que vão os contatos no site? Alguma coisa boa?

Você tenta tirar um cisco dos olhos sem manchar o delineador e responde.

– Não. Nada bom. Nada mesmo.

Ninguém pode dizer que você mentiu.

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net