Tempos bicudos

O diabo que te carregue! Capítulo 23

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Quando o assunto é romance, mesmo ferida, machucada, repleta de talhos infeccionados, bem que você gostaria de um emplastro de um metro e oitenta e ombros largos. De qualquer maneira, os compromissos profissionais e as crianças têm absorvido quase que todo o seu tempo disponível.

Hoje, por exemplo, depois do expediente, você marcou um café com o representante de uma empresa cujos serviços interessam ao seu departamento. O mote do encontro é tatear uma futura parceria e trocar impressões sobre trabalho – impressões descontraídas, sem o ranço de uma mesa de mármore e uma copeira servindo cafezinho em xícaras com logotipo comercial.

Sim, é apenas um encontro de trabalho. Mas, num mísero segundo, você imagina se Cássio não será, também, um homem interessante. No bar, você o espera chegar, com uma pasta vermelha sobre a mesa – o código para vocês se reconhecerem, pois a foto dele no WhatsApp é de um por de sol e a sua é das crianças (você precisa modificar isso urgentemente). Talvez ele seja interessante e desimpedido. Você fecha os olhos e sacode a cabeça: “Xô, xô, pensamentos do mal! Saiam dessa cabeça frágil de recém separada”.

Quando você abre os olhos, alguém está vindo em sua direção, sorrindo. Sim, é ele. Oh, céus, ele é bonito! Oh, céus, ele está bem vestido! Oh, céus, ele calça sapatos maravilhosos! Oh, céus, ele não tem aliança! Você está perdida!

A conversa rola solta e franca por mais de uma hora. Da possível parceria profissional vocês passam a livros, música, cinema. Cássio é culto, ama Billie Holiday, sabe poesias do Neruda de cor, gosta de cinema e adora cozinhar: você está mais do que caída por ele. Se ele te convidar agora para jantar e esticar a noite, você vai. Se ele te convidar agora para ir ao seu apartamento, você vai. Se ele te convidar agora para escalar a montanha K2, você vai.

Vocês estão sentados a uma mesa ao lado de uma grande vidraça que dá para a rua. Sensação agradável, essa: as luzes e o movimento noturno estão próximos, enquanto qualquer barulho e o cheiro dos escapamentos não chegam até vocês. Nisso um rapaz, na calçada, para em frente à vidraça, olha para Cássio e acena para ele, que acena de volta. Em alguns segundos o rapaz segue seu rumo, sumindo por entre uma aglomeração que espera ônibus num ponto.

– É seu amigo? – Você pergunta, por educação.

– Bem… Não exatamente. – Pausa. – É um ex.

Você sente seu rosto se decompondo. Monta alicerces de emergência para não parecer muito chocada. Não que fosse algo chocante um homem ter um namorado, em absoluto, o que é chocante é aquele homem ter tido um namorado, o que significa que você está mais fora do jogo do que atleta pego em exame antidoping. Com a ajuda das aulas de teatro na adolescência, você consegue sustentar mais quinze minutos de conversa descontraída, até que o encontro naturalmente se dê por encerrado.

Ele vai embora e você sente cólicas no estômago. Isso nunca te aconteceu, se sentir atraída por um gay. Você mantinha a estúpida crença de que os gays exalam um tipo de masculinidade que é atraente apenas para outros homens e que uma mulher que se interessa por um gay é, no mínimo, louca de pedra.

Pois você estava enganada, a masculinidade que um gay pode exalar é tão poderosa quanto qualquer outra. E você caiu feito uma pata. Ainda bem que aquele rapaz parou para cumprimentá-lo, senão você deixaria que uma esperança vã enchesse seu peito romântico e a queda seria ainda maior.

Melhor voltar para casa com o rabo entre as pernas. Pois é… Os tempos estão bicudos.

 

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Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net